domingo, 20 de março de 2011

Juntos ou não

A nossa visão periférica diminui quando estamos juntos; porém juntos, aumentamos nosso foco. Não há bem ou mal nisso, e negativo ou positivo são vistos de diferentes pontos de vista. Só há o que é, e só é o que há. Mas isto não limita, as possibilidades são infinitas!

segurança

Hoje eu tenho certeza. Sei pra onde ir e vou caminhar, correr, nadar, pedalar, dirigir, navegar, pedir carona, voar.. até chegar!

sexta-feira, 18 de março de 2011

estação

O outono está chegando e me surge um alívio grande no peito. Poderei finalmente viver a melancolia sozinha. Sinto o vento frio que bate no meu mensageiro dos ventos, percebo meus pés ficando gelados, e já farta de companhias vazias, que matam só vontades mas não completam desejos mais profundos, me proponho abraçar a frieza da estação. Sou sempre a última folha a cair da árvore. E caio mais lenta, rodopiando com o vento, pq tenho esperança, e pq nem todos os dias do outono são nublados apesar do frio.

Madrugada dentro da caixa

Estas horas, no meio (quase fim) da noite, na madrugada.. quando o continente inteiro em silêncio, me agita.. só a tua voz, macia, me relaxa. Isso vai passar, dear friend, virão outras vozes (mas a tua será sempre, pra sempre será, a macia voz que me relembra: "love is all we've got", pois só tu faz do jeito que tu faz. Teu toque me faz dançar, tua voz me faz dormir). Secretamente tenho tua inicial tatuada em mim.

Chegada

Te esperei, como todos, com muita expectativa. Era ímpossivel imaginar como seria teu rosto, só era mesmo possível saber que qualquer rosto que viesse a ter, eu amaria. A espera foi longa, e agora que já te vi pela primeira vez, parece não ter demorado nada. Tu tem cheirinho de coisa nova, tem peso de coisa fácil, e quando ouço tua respiração o mundo parece parar de girar. Não há muito o que fazer agora além de imaginar como serão teu olhos, como serão teus cabelos, como será ouvir tua voz, e preparar o mundo aqui em volta de ti pra te receber quando quiseres andar por ele sozinha. Mundo que com certeza já é mais feliz só por te ter.

segunda-feira, 14 de março de 2011

tarefa interminável

Fala, querido, desembucha. Não precisa guardar tudo de mim como quem realmente achasse que eu não percebo UM músculo teu. Pois admita que sabe, que vê que eu percebo tudo. Cada espasmo teu, seja dormindo ou acordado, eu entendo, e eu te saco como ninguém. Pode falar o que te veio à mente agora, essa dúvida que não cala: Pq diabos eu sinto essa falta enorme de novidades? - Não é isso que quer tanto saber? Sim, tô sempre querendo um agito, uma tempestadezinha. Mas confie em mim quando digo que não sou errada por ser assim. As coisas serão do jeito que forem ser, indiferentemente de como a gente chute o balde. Tu me quis tanto longe que me teve, amor. E quer saber? Acho que nunca terminamos de conhecer alguém, essa é uma tarefa interminável. Talvez só seja a hora de te conhecer visto de longe. Te conhecer não te tocando, te conhecer não conversando contigo. Te conhecer não te ligando mais. Te conhecer interminavelmente, e ainda assim nunca saber quem tu realmente é.

sexta-feira, 11 de março de 2011

chacais, eu e tu.

Tenho sido um chacal à tua espreita, deliciosa expectativa.. te enxergo no espelho e te espero transmutar pra fora de mim em um desabrochar nunca antes visto! Te encontrei como uma semente pequena aqui, mínima como uma idéia vinda de dentro de mim, e tenho usado farelos da parede do meu quarto pra te fazer tomar forma. Te sinto crescer rapidamente e, com uma nauseante e ansiosa alegria, te aguardo vir, pronta pra te usufruir sem medo ou sem qualquer piedade de quem vier pela frente.
Não te deixarei cair por mais de um segundo, não te permitirei ter dúvida alguma de à quem pertence este mundo pois, sim, será todo teu. E eu ainda vou existir quando tu chegar por completo. Eu estarei atrás de ti pra ser o impulso; estarei dentro de ti, pra ser a carga necessária da carroça; e estarei também à tua frente, pra ser os olhos, para ser a guia.. e para ser o primeiro peão a morrer.
Seremos chacais, eu e tu, à espreita do futuro. À espreita dessa fissura existente aqui, entre dentro do corpo e o mundo lá fora: dois chacais à espreita da pele.

sábado, 5 de março de 2011

"ansiedade de véspera"

é a expectativa que não me deixa dormir. expectativa de que chegue algo logo, aquilo que complete este buraco que se formou, para que eu não tenha que me ater ao passado, aos dias de frio e vinho, dias de sentar na calçada e esconder as mãos dentro das mangas, às vezes com a filosofia de um amigo, às vezes apenas na companhia de um cigarro. é, saudade mesmo desses tempos que não voltam. anseio por mais de tudo que foi bom, mas as coisas estão diferentes agora e não há como voltar pra tudo do passado. sei que há algo por vir e sinto todos os dias o que chamo de "ansiedade de véspera". sinto todos os dias pois não sei que dia chegará. então, fico na expectativa. não é uma expectativa frustrada, é apenas, inútil demais. virá o que virá de qualquer maneira, seja noite ou dia, esteja eu acordada ou não. mas quem me dera poder ter o que virá do futuro sem abrir mão daquilo que deixei passar..

domingo, 27 de fevereiro de 2011

sol nascer

Desculpe, mas eu tenho certeza. Já dei meu passo pra frente e não há como retornar. Mas caso isto ajude: foi ótimo de ver. Mais que isso, foi justamente o que eu precisava. Precisava disto pra ter certeza do que eu quero levar comigo, e também pra ter certeza do que buscar daqui pra frente. Sei que quero alguém com o mesmo peso das tuas mãos no meu cabelo, sei que quero alguém que deite no meu colo com a mesma naturalidade que tu faz, sei que quero ver o sol nascer com a mesma sensação de tempo que passa voando como sinto contigo, e sei que quero discussões rápidas que chegam logo à parte boa de fazer as pazes, como com a gente.
Resta ver agora, se haverá alguém que seja como tu às vezes é, não sendo tu.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

teu coração

Achei ter visto teu coração. Mas olha, não tenho certeza! Era um coração que tava bêbado por aí, na rua, e veio me falar um monte de merda, que eu até quis acreditar, mas não tinha certeza se ele falava sério. Sei como é.. Tô acostumada com papo de bêbado, sabe.
Ei, mas será que era ele? Pois sempre que te encontro, ele parece um coração daqueles bem sérios, sabe? Bem na dele, bem auto-suficiente (embora eu saiba que é tudo fachada). Acho até que teu coração, um dia, deixou escapar um sorrisinho pro meu, broto. E acho q foi o suficiente pro meu coração poder reconhecê-lo em qualquer outro lugar! Mas aí é que tá.. eu não tenho certeza se foi teu coração que encontrei, pois saí hoje sem o meu. Ele tava cansado, tadinho, sem inspiração, então o deixei em casa. Mas ei! Me diz como ele é, o teu coração, que daí te falo se era ele mesmo. Ele é um coração meio puro até, com leves arranhões e um espaço vazio dentro?
Se esse era ele.. o que vamos fazer à respeito? Fingir que nada aconteceu? Não sei, talvez seja melhor mesmo, evitar qualquer constrangimento. E com isso, eu quero dizer: evitar qualquer sofrimento. Dramático, não? Retrair o desejo dos corações para evitar sofrer, e assim, de forma cinematográfica, perder junto as possibilidades de felicidade que o encontro dos corações nos traria.
Mas ok, ok. Podemos fazer isso. Podemos fazer este jogo de ignorar que tu parece ter tanto prazer, ou pelo menos, prática em jogar. E eu posso até esquecer as loucuras bêbadas q teu coração me disse, cara, mas e o meu coração? Pode ele esquecer todas as loucuras sóbreas que tu já me falou?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Acordei

e tô pronta pra outra.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

não demora, broto, eu tenho pressa.

Não sei oq dizer dos ultimos dias, só me parece que tu me quer mas não me quer. Me deixa longe mas amarra uma cordinha no meu minguinho pra me puxar quando eu estiver longe demais. Isso faz algum sentido? É um divertimento teu me ver assim, cambaleando entre os caminhos que eu poderia tomar, ou é covardia tua em admitir que realmente me quer por perto? Fiz até uma música pensando em ti.. patética na madrugada. E agora, acho q chega! Leia meus pensamentos e veja: meu convite tem prazo de validade. Quando nosso tempo expirar, vou cortar qualquer amarra. Tu vai perder, playboy. O mundo é dos rápidos!

sábado, 19 de fevereiro de 2011

sinto saudade tua, e mal te conheci. pode isso? tu veio tão rápido, que até parece conspiração. é como noites em que fico sozinha no quarto, e a lua lá fora me chama pra ver a sua luz. tu foi distante só pra me provocar, tu foi sozinho. e me deixa aqui, com (e como) outras coisas, só pra me confundir. bem feito pra mim, e obrigada por fazê-lo. é o que eu queria o tempo todo, que tu me tentasse. tentasse intensamente, e depois sumisse, como se estivesse lendo meus pensamentos, como se estivesse me disputando com o resto do mundo. minha atenção é lenta, e tu ganhou a prioridade. agora me diz.. a neve compensa? ou a beleza dela é passageira, e te faz falta, às vezes, a companhia? ou.. eu só devo dizer, no lugar de tudo isso: "quem me dera..".

distância desmedida

tá tudo longe demais, tá tudo errado demais. eu olho, mas não consigo alcançar. acho que é hora de descer o mais baixo que posso, pra aprender como não fazer.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Será?

Se eu voltar agora, será que consigo continuar a idéia? Ou ela fica inacabada, tadinha, excluída, num canto, sem chances? Se eu encarar este novo lugar como o único pra onde voltar, será que esqueço das memórias de quem ficou lá longe, das lembranças que cada árvore daquela rua me trás? Será que a saudade daquele meu antigo canto é necessidade ou apenas alguma vontade covarde de reencontrar familiaridades? O que fazem aquelas paredes, aquelas pessoas, aquelas calçadas tão marcantes? O contexto 'infância'? O agravante 'tempo'? Será a saudade algo espiritual, sobrenatural, poético e mágico ou apenas hábito interropido? Se eu voltar.. será que existe uma chance de descobrir? Parece que só ficando aqui e indo adiante é que será possível compreender o que acontece quando tudo muda por inteiro, quando tudo se renova, e o novo contexto transforma as memórias em substância insensível. Mas então, pode ser tarde. Tarde pra voltar atrás se era mesmo tudo real: a saudade, a necessidade, a chance da idéia prosseguir. E aí.. se for tarde, será que perco tudo de novo?

guardanapo de papel no bar

Escrevo assim, jogando as palavras, como desabafo. Sem separar as frases, os assuntos, assim, de qualquer jeito. É bom, é necessário, é um alívio. E às vezes, é um vício descontrolado, é urgência, é um guardanapo de papel no bar. Egocentrismo desmedido, de quem nunca teve medo do improviso e que tem a escrita como mecanismo de encontro pra falar consigo mesmo.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

saudade

Não vou deixar inacabado o que começamos. Posso viver o universo inteiro dentro de mim.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pessoas Miojo

Como podem certas pessoas me fazer mudar de idéia tão rapidamente? Uma hora inevitáveis, outra hora tão descartáveis. Uma hora tão atraentes, outra hora quase tão dignas de repulsa. Não sei se são elas ou eu, mas é como se em questão de 3 minutos certas pessoas fizessem meu desejo pela companhia delas se tornar algo contrário. Parece que estas pessoas miojo não conseguem manter meu interesse por elas durar por muito tempo. Me pergunto: o que lhes falta? Lhes falta tempero? Pois têm me aparecido umas quantas pessoas miojo por esses tempos.. e elas matam a fome mas não me matam os desejos. Eu quero uma refeição completa!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

"vítima" voluntária

Tenho conseguido ficar livre de ansiedades, de expectativas e de sofrimentos por antecipação. A vida no momento, parece um rio tranquilo, que segue seu rumo sem fazer espuma. Mas algo perdeu sua graça. Até cansei da idéia que andava tendo, e que julguei por alguns momentos brilhante, de tentar persuadir as pessoas para conseguir o que quero. Isso me pareceu tentador e emocionante! Quase maléfico! Mas a verdade é, que a única coisa que quero, é algo ou alguém que desperte minha total atenção. Quero ser persuadida por um mar assustadoramente agitado! É apenas que nada parece interessante o suficiente pra que eu invista meu interesse. Estou desesperada por algo que me faça sentir uma paixão desenfreada e inconsequente! Á última coisa que quase conseguiu me causar isto foi uma música viciante que já está perdendo seu encanto comigo. Sinto agora que estou na fissura por algo que parece não existir.

sábado, 29 de janeiro de 2011

gosto de "que te tenho"

Hoje vou dormir sem escovar os dentes, pra que não me saia esse gosto amargo da boca. Gosto de bebendo por horas, gosto de silêncio por horas, gosto de "não te vejo faz horas". Tá tudo muito bem, obrigada. Amanhã pego meu rumo e vou ver oq acontece do outro lado, ver se algum sonho se realiza. Engraçado como isso soa familiar, de um jeito totalmente único. Sinto que já passei por aqui, mas que nunca foi tão verdadeiro como agora é (e nada do resto deixa de ser verdade, eu vou estar ali, me chame quando precisar..)..

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

regras soltas

Me sinto agradada pelas coisas facilmente, não critico muito os acontecimentos. Me parece que desafio e tranquilidade são duas coisas que se complementam. Eu estava presa sem saber, presa demais na liberdade. Desde que percebi essa falsa sensação de saciedade, vou aprender a me livrar dessas coisas. Coisas velhas.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

insônia / saudade / vício

Buscando razões para minha insônia, descobri que não gosto de dormir sozinha. Sou viciada em companhia. Me agarro em alguém enquanto posso para superar as noites. E continuo assim, substituindo companhias para passar pelas noites como quem não quer ouvir o que a noite solitária tem a dizer. E então, ao sentir saudade da companhia, já não sei mais qual o meu objeto de saudade. Esta última companhia, ou a primeira companhia substituída? E vou seguindo sem saber, por enquanto, sentindo saudade de uma companhia qualquer, e esperando a noite passar para que eu durma com o som da rua, dos passos, o som das pessoas.

domingo, 23 de janeiro de 2011

medo da minha cama

Madrugada. Excesso de pensamentos. A cama parece me chamar e me pedir pra fechar os olhos. Recorro à vodka na geladeira, mas a cama ainda chama. Recorro à alguma música que anime, mas a cama continua chamando. Sinto medo da minha cama. Ela, que eu sei, acaba com tudo. Acaba com o dia, termina com os ultimos pensamentos do dia sem eu perceber. Cama sonífera.. cama perversa. Cama que muitas vezes foi de amor, que muitas vezes foi de soluções, que muitas vezes acabou com uma noite ruim. Hoje, sinto medo da cama.. e só pretendo deitar quando outro dia chegar.

sábado, 15 de janeiro de 2011

colagem de papel

estou em processo de adotar uma nova filosofia, a de que a vida é uma colagem de papel. colamos fotos, figuras, imagens.. todas em sobreposição. algumas, merecem mais destaque que outras, em um espaço limitado onde não podemos enxergar todas as gravuras ao mesmo tempo. há momentos, em que novas colagens são necessárias. e é preciso colar por cima de imagens que gostaríamos de manter. muitas vezes, sobra um pedaçinho visível daquelas imagens antigas, que trazem à tona algumas memórias, mas na maioria das vezes, são só memórias. e é preciso continuar colando as gravuras por cima das outras. e é preciso continuar colando, mesmo quando ainda queremos poder enxergar as gravuras.. e às vezes, com a cola ainda úmida de imagens já coladas, é preciso continuar colando.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

vou te deixar no mar

eu pensei em sentar na minha cadeira e te escrever alguma coisa, só pra explicar pq vou fazer isto. não consigo. talvez seja tudo muito subjetivo, ou talvez não haja explicação de todo. só acho que algo deve ficar pra trás e, sinto esse peso, agarrado à mim, e ando me arrastando pelas ruas da cidade carregando o teu peso. não sei quem foi que se pendurou no outro, acho q na verdade, eu mesma te pendurei em mim, com tua roupa de domingo.
pois acho q me enganei, quando pensei em sentar na minha cadeira, e escrever pra ti, achei q soubesse quem é tu, mas não há como saber, pois este peso não é tu de verdade. este "tu" é uma projeção de uma vontade que tive, de um sonho que, agora, está guardado na gaveta por enquanto. mas preciso usar as gavetas, meu amor, é ano novo. preciso limpar as gavetas. por isso vou te levar no ônibus comigo, enquanto ainda sinto teu peso, e te deixarei lá com este sonho, perto do mar, onde o sonho cresceu e se alimentou.

acho que, na verdade, não tem subjeção alguma, o que eu sinto é uma total falta de explicação pra tudo isto. mas vou fazê-lo mesmo assim, pq essa sou eu, e não quero escapatórias de mim no momento. pois agora, quero que só reste EU em mim.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

improviso

Sinto que sempre tive impulsos de controlar as situações. Tentando sempre dominar os contextos em que me encontro. Tenho visto que, o mundo realmente dá voltas, que as coisas realmente não duram, e que as pessoas são sempre imprevisíveis. Aparentemente, vivemos do improviso. Mas me sinto desafiada pelos acontecimentos, quase como se estivesse sendo testada por eles para que vejam quais serão minhas reações. Ando tentando ter as melhores possíveis, e recentemente senti como se tivesse vencido as olimpíadas. Percebi como posso reagir de maneira inesperada à coisas novas. E por mais negativista que seja o pensamento, entendi que quanto menores nossas expectativas, menores nossas frustrações. Postura dificil de adotar para quem, como eu, vive de sonhos grandes..

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

degustando as idéias

enquanto tu almoça, eu penso.
ontem foi o mesmo: enquanto almoçavam, eu pensava.
já é tarde pra almoçar.
almoço.
almoço me lembra "quase".
quase de tarde, quase de noite, quase jantar.
escrevo. e depois leio e releio.
já não escondo mais as idéias.
e ontem foi o mesmo: enquanto almoçavam, eu fotografava.
um céu azul em contraste com o morro verde.
sítios são sempre bem vindos.
e almoços.
jantares.

com muita ou pouca companhia, almoçando ou não.
as idéias alimentam.
mas não dispensaremos o almoço.

domingo, 26 de dezembro de 2010

não vou dizer o que é

lembrei de ti hoje. (e ontem também). sabe o quê? andei pensando em ti mais vezes que tenho deixado parecer. é que as pessoas andam com uma chata mania de me dizer o que sentir. alguns contextos têm sido inéditos pra mim, e eu acho que eu sei o que é. mas algumas pessoas andam com essa mania chata de me dizer que o que eu digo sentir não é o que realmente sinto. então, vou só ficar aqui. pensar assim. sentir o que não é. e não dizer o que se passa.

atravessando a rua

essa nostalgia estática me apavora. é uma música, uma lembrança, um tédio que remete tantas carências. coisas que ficaram em haver, que possivelmente terão que ficar pra trás. agora já não tenho mais certeza das respostas que dei, mas ainda acho que as escolhas foram certas. isto se tornou uma obrigação de conhecer a mim mesma na mais dificil das situações: a situação simples. sim, por ser tudo simples é que é dificil. não há desculpas depois, pro porre de vinho, pras coisas ditas em hora errada, pras atitudes idiotas noite afora. não tem justificativa pra choradeira ou gritaria, pra insanidades alcooólicas ou bobajadas infantis. é tão simples, que é dificil. tem que ser encarado assim, como quem atravessa a rua.

emoldura-se desejos

entrei na moldura da tua foto. aquela foto, que estava na mesinha da sala. lembro que quando estive lá, não a vi com atenção, mas agora só consigo pensar naquela foto. eu não existia naquela foto, e pra existir nela agora é preciso desistir da sala que através da foto se vê. entre a sala com portas e janelas escolhi a moldura fechada da tua foto. estou esperando que chegues em casa pra ver, e fico na expectativa de que escolhas também a moldura da foto pra ver comigo a sala que deixaremos pra trás.
enquanto isso, fico aqui, com tua imagem do passado, me fazendo sala.

convite ao silêncio

os dias de sol, que fizeram muito bem, que aqueceram os corpos para as noites frias, somam-se aos canecos de chopp gelado que resfriaram o calor das noites insuportavelmente quentes, e avisam que depois de uma ou duas últimas noites, a farra termina e os dias de quietude são precisos. pequenas dores boas de sentir fazem parte da gritaria que precede este silêncio.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Sorriso

Disfarço o sorriso quando te vejo. Não sei o que é.
Disfarço o riso quando tu ri, não sei o motivo.
Disfarço o susto quando te vejo, e não é fácil.
Disfarço os disfarces que tenho pra cada coisa tua.
Pra quando me toca, pra quando me olha, pra quando vai embora.
Disfarço minha alegria, disfarço minha suspeita, disfarço minha saudade.
Disfarço o que sinto, disfarço sempre que não vi teu disfarce.
Disfarço o sorriso quando tenho sorriso, e disfarço a vontade de ter teu sorriso.

Disfarço que disfarço pra que não tenha que disfarçar que não sinto.
Até quando sorrio é um disfarce, pra disfarçar que disfarço.

Espere só um pouco

Estou criando antes de acontecer, eu sei. Espere um pouco. Posso estar demorando, adiando, eu sei, querido, mas não é prepotência minha. Apesar de saber que posso tanto, estou sendo modesta em minha criação. Só quero que tudo saia bem. Que as paredes do quarto não precisem guardar segredos sujos, e que depois as calçadas das ruas não me tenham que segurar aos prantos como já fizeram. Penso não só em mim quando espero criar antes de acontecer. Estou antecipando os movimentos apenas para fazer melhor o que foi feito antes. Para fazer direito. Independente do que venha a ser (pois este, o futuro, é o menor dos detalhes), estou esperando para me colocar na tua frente no melhor momento, no momento certo, no momento ideal, onde as expectativas que foram de outros não venham a ser nossas. Onde só exista os olhos de agora, e onde a tranquilidade de apenas viver viva em nós por bastante tempo. Tomaremos assim, passos sem arrependimentos. Poderemos escolher as cores certas, as palavras certas, os movimentos certos, independente do que seja, e que seja por um segundo se assim tiver que ser, mas que seja o melhor que possa ser. Pra que comece de maneira correta, e que termine com elegância.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Novo antigo

Tudo novo, de novo. Em meio a tanta coisa diferente, volta a memória de que já se passou por aqui, por estas ruas, alguma vez ou outra. É possível sentir a tranquilidade mesmo neste turbilhão de novidades, pois a sensação do conhecido aquieta a ansiedade. Parece mesmo que quando tentamos deixar de ser, é aí que realmente somos. A infância há em todos, e não há escapatória das lembranças; e ao menos os sonhos podem ser mantidos latentes enquanto fingimos que há coisas mais importantes nesta vida de adulto pra fazer.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Gigante

Tinha olhos. Dois, para ser mais exata. A criança Carolina tinha dois olhos, que enxergavam o que quisessem enxergar, perfeitamente. Ainda assim, isto não era suficiente para o mundo, que tentava incansavelmente fazê-la enxergar de maneira diferente. Ora! Cada um não enxerga como bem deseja? Quem é que já não andou no centro da cidade, tropeçando em todos os que passavam, olhando bem para o alto para ver aonde terminavam cada um daqueles prédios? Carolina já. Dava-lhe prazer, talvez, ou apenas lhe era uma necessidade incontrolável olhar para uma direção diferente e não se sentir parte da multidão que andava apressada e aparentemente sem rumo, como formigas num formigueiro sendo destruído por uma criança mal-criada. Aliás, Carolina gostaria de ser gigante. Ela imaginava ver tudo de cima, ver um horizonte desconhecido, ela imaginava salvar o formigueiro! Mas nunca foi reconhecida por seus pensamentos generosos. Quem via de fora, se irritava com a menina pensando, pensando. - Volta pra terra, guria! - diziam. Com o tempo: as experiências. E Carolina foi aprendendo a dividir as coisas, dividir o tempo. Ela aprendeu a fingir que não pensa (ou disfarçar que pensa). As pessoas distraídas até começaram a acreditar mesmo, que a menina havia deixado de pensar, como se fosse pensadora por mania, por vontade ou birra. Não havia lhes passado pela cabeça, que não se abandona a própria natureza. E por isso há dias em que ninguém vê a menina que, já crescida, se isola para dar espaço, neste mundo de pilotos automáticos e controles remotos, à imaginação.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Eis-me aqui

já não sei mais quem eu sou. é tudo tão confuso! nem sequer me lembro das coisas que falei, talvez por fazer questão de esquecer. tudo, tudo o que foi dito de bom a gente esquece. é uma sina interminável que o ser humano possui, buscamos por vontade própria algum sentimento de dor infindável. e daí voltamos ao ponto de partida, só que com menos alegria pra recomeçar a corrida. e daí, estamos mais velhos, mais cansados, mais tristes, e tudo, tudo serviu pra nos ensinar que desde o começo teríamos que ter escolhido a solitude em vez do sonho, pois ir atrás de um sonho que fala de um amor lindo, termina sempre em solidão. e todo ser humano sabe que prefere solitude à solidão. mas insistimos no erro, insistimos sempre. pq há essa necessidade de sentir as dores do mundo. e sabe o quê, meu amor? eu sempre senti dores.. até quando olhava uma fotografia e via uma luz que me lembrava um piscar de olhos, um instante único em que às vezes a gente se dá conta de estar vivo, e daí dói, mas é um doer bom. e ultimamente, tenho sentido dores ruins. várias dores que não sei explicar. um medo que fica latente em mim, medo de perder esse calor, de sentir frio mesmo quando o vento é amigo. tão difícil de explicar.. não sei como pode, mas lembro de mim e não me reconheço mais. sou uma estranha pra mim mesma e entendo qualquer um que passe por mim sem me ver, pois até a minha fisionomia é de outra pessoa. tenho o rosto de alguém que desistiu de um sonho, que bateu a cara na parede, que não se arrepende de nada mesmo quando deveria. já sou alguém com menos esperanças. então, amor, prazer! me apresento à ti mais uma vez, embora eu pense que agora já estejas apaixonado pela antiga eu.

terça-feira, 15 de abril de 2008

acidental

não raramente me consigo entreter com as coisas que se encontram mais perto dos olhos, mas quando eu volto a me distrair daqui, tropeço pra fora das laterais desse cenário. comigo desencaminhada, o que podia ser uma linha reta se demora e me atrasa por me colocar em zigue-zague. olho pro céu e fico, e o tempo passa por mim e vê minha imagem vidrada no que ainda não é, e me sobra apenas o que é casual e sem faculdade. e essas coisas casuais me dão razão, e eu volto a procurar os olhos do céu.

terça-feira, 8 de abril de 2008

passagem

resisto ao inverno pois há verão em mim.

terça-feira, 1 de abril de 2008

nosso encontro

O que fez a poesia foram as partes do teu silêncio, teu silêncio gradual que me deu voz. Aos poucos eu montei versos que pareciam infinitos, jorrando de mim como água de uma torneira aberta. A gente deu vida à nossa vida com esse poema, onde o teu silêncio cortando o meu fez a minha voz se encontrar.

quinta-feira, 27 de março de 2008

saleiro mágico

o que eu sinto por ti? acho não dá pra dizer nada que tu possa entender pq não inventaram as palavras certas ainda, mas eu posso tentar: é como se o vento tivesse mãos e segurasse um saleiro de tranquilos grãos com poderes especiais. os grãos caem como uma chuvinha gostosa que desce de leve, e a gente vai sentindo, sentindo aos poucos. vai molhando o bobo, encharcando. um saleiro de açúcar e sal, que tempera as nuvens e adoça os momentos. e no nosso caminho de pedrinhas amarelas, a gente é acompanhado pelo vento que, às vezes mais, às vezes menos, polvinha a gente com sensíveis grãozinhos invisíveis. acho que o saleiro mágico é amor, sim.

quarta-feira, 26 de março de 2008

as minhas vírgulas

não me interrompa na minha interrupção, é apenas um intervalo necessário do tempo no tempo. eu não tenho mais pressa, gosto das minhas pausas. a vida é uma viagem longa, é preciso usar o freio uma vez ou outra. é só vagar no pensamento, só um pouquinho. é breve, mas sem pressa. acredite, logo virá uma ventania pra arrastar tudo. mas como o momento de chegada dos ventos é sempre imprevisível e nunca se sabe bem o que esperar de uma ventania, nesse meio-tempo as vírgulas mantém a alusão.

mais uma vez, outono

o vento do ventilador tocou a pele mas não foi igual ao vento que fazia lá fora. pq de lá eu via o céu, e os pensamentos voando me faziam voar. a sensação de tocar as nuvens com os pés ainda no chão sempre me fez sorrir, e é aí que eu lembro da já nostálgica criança que eu fui, no parapeito da janela sentindo o outono chegar. me descobrindo desde então uma folha, aquela última a cair da árvore. ainda verde, fazendo piruetas até deitar na calçada e esperar o tempo. é quando tudo morre pra poder nascer. e de volta ao ventilador, retornando a olhar as horas, nada parece fazer muito sentido quando se cogita falar. tentar explicar qualquer uma dessas coisas é dispensável, e o meu silêncio toma conta das lembranças do futuro, lembranças que ainda são sonhos jovens. e logo tudo vai passar pois há coisas a fazer. esses pensamentos são só maluquices que uma voz desconhecida faz, tocando a gente por dentro, vindo de uma música com a batida exata.

sexta-feira, 21 de março de 2008

vício

como se fosse um círculo, a mente se encontra. um gato adolescente tentando pegar o próprio rabo. viciada em pensamentos contínuos daquela mesma coisa: a falta do conseguir querer. e como se sabe, desde que se sabe, o contínuo é continuado enquanto continuo é. confuso? pois é. sem se dar conta, a confusão toma conta. e continua tudo igual, uma torneira aberta que não se consegue fechar.

segunda-feira, 17 de março de 2008

térmico, visual, recomeço.

sinto, des-sinto. sento e penso. de tudo aquilo que passou de leve em mim, como a brisa da manhã que chegava, eu esqueci. passou tão raso, como todo superficial é breve em mim. e ficou presa na pele aquela sensação de frio, que doía por dentro, e a sensação do alívio, que acalmava tudo. o meu antigo pensar desfuncionava tudo que tinha potencial, pq me fazia duvidar de pessoas como eu. pessoas que dormem e acordam, todos os dias, sonhando sonhos de coisas bonitas. e quando as coisas desfuncionavam, eu me tornava feia com elas, pois não havia em mim ou nelas algo que vivesse por uma intenção. os intuitos morriam, evaporados pelas vertentes que as dúvidas criavam. e designou-se em mim, então, um termômetro. é tudo quente ou frio agora, o morno se dispensou quando a nova dualidade começou no mundo. certo e errado se extinguiu: só há beleza e sua ausência, agora.

quarta-feira, 5 de março de 2008

abrindo a caixa de pandora

da vontade já existente em mim, eu moldei o medo. minha acidez estática se tornou informe, dissolvida em torno de movimentos frios e pensamentos montruosos. a grandeza do que veio a ser foi linda, mesmo que por tanto tempo antes, inesperada. entrelaçados, os corpos uniram o pensamento, a tranquilidade veio tão logo como a vontade de que, não o momento, mas a sensação durasse para sempre. seguiram-me dúvidas de o quê a imagem lilás que eu estava a observar poderia ser. um quadro sem moldura, ou um espelho sem corte. acredito que seja minha imagem, um rio sem beira. acredito que sejamos nós, passeando calmamente pelo mundo, descobrindo um no outro, a companhia em nosso caminho. acredito mesmo que sejamos nós, os dois em mim.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

dos momentos breves

como entrar na piscina quando tá frio, dói. mas esquenta depois, é bom. tem que se sacudir, é tudo tão rápido. a gente lembra de alguém, sente um cheiro, fala sem pensar. são sentimentos malucos que chegam bem de repente. tudo paralisa por um segundo quando a gente lembra de prestar atenção. e depois tudo desaba. desaba sem se saber como desabar, rápido e lento ao mesmo tempo. é como um castelinho de cartas, que cái logo com o vento. ou como o vento devagarinho derrete uma escultura de gelo. é o que é quem decide como cair, não o que derruba. e é o que se é quem decide como andar pelo caminho. o caminho é o mesmo pra qualquer coisa que passar por ele.

e ás vezes a gente lembra de prestar atenção e tudo faz sentido, mas faz sentido só por um momento.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

desistente da resistência

eu me colei no teto. fui como um grilo, saltanto até o forro e ficando ali. te observei dormir. os agitos às vezes leves, às vezes bruscos, do teu sono. os movimentos do teu corpo. os signos das tuas posições, que me falavam em diferentes idiomas. aquela sensação toda de tranquilidade incontável, na penumbra do quarto. a respiração que contava teu dia, o cansaço que tornava melhor a companhia. o incrível transposto em simplicidades como as dobras do meu lençol azul em ti. é como se essas chuvas de fim de verão contassem o que procede a noite, o outono que vai me trazer aqueles cheiros todos de novo. e sem medo das músicas populares brasileiras, eu deixo a chuva molhar. e então lembro dos dias que ainda vamos acordar, como se fosse ontem.

sábado, 19 de janeiro de 2008

o rabo mordido da cobra

sonhos. aqueles sonhos dormindo. me mergulham num porão de antigas 'eu mesma'. dentro da minha cabeça, há mil de mim. todas feitas de massa cinzenta, todas elas são chefe da tribo. todas elas são a cabeça da cobra. é um circular de gestões incessante. quem é que manda agora, quem é que manda depois? e quem é que senta no banco e espera sua vez? eis a poeira do porão, é o que as assusta mais. têm medo do seu espaço no porão do esquecimento. por isso todas elas me sussurram ordens, algumas gritam. e como todas elas querem me ser, nunca sei a quem obedecer. dou voltas e voltas e voltas aqui dentro e acabo por não saber. então sempre desço as escadas até o porão e me espero terminar de falar. mas no coração tem mais uma, o rabo, que já cansou de escutar. (alguma de mim torce para que essa se levante e suba as escadas)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

trépido sossego

me encontro às vezes, sem ter marcado hora. me descubro comigo mesma, sem ter planejado chegar até mim. curativos já são pouco necessários, quase não há dor. tudo o que houve foi perdoado. isentei-me de todas as culpas. o vento chega quando a pele se contrái de sol. e se há muito frio para mover-me, um misterioso calor interno me alivia. só me amedrontam aqueles dias, os dois ou três últimos dias. mas isto pq me acorrentei à esses modos de enxergar, que não são meus. mas tudo isso se ameniza à medida que o vento canta. e eu vou vivendo esses meus encontros tão quietos e repentinos, que vou ficando em sossego. e se penso em mais alguém é pq não sei o que pensar, pois se há alguma dúvida é sobre se o amor é morrer ou matar.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

a infinitude do segundo.

um segundo, talvez dois. é o que basta, é o pouco necessário. o segundo é grande, é infinito, é tempo que passa rápido porque que a gente apressado, não deixa ele parecer congelado. são poucos segundos que se precisa, aqueles segundos decisivos de fim de jogo. é quando se tropeça e tudo diminui de velocidade, a gente vive uma vida entre o tropeço e a queda. a gente raciocina e depois perde a razão, a gente se desespera, depois relaxa. a gente faz de tudo. fazemos de tudo em um ou dois segundos. esse tempo que parece curto, que parece pouco, é tudo o que define uma vida. é a escolha de dobrar a esquina, de lembrar de desligar a luz, de se apaixonar. aquele maldito segundo que não tem volta, aquele segundo definitivo. é o que transforma a gente no que quisermos, e é o que já nos fez ganhar e perder tantas vezes antes. é aquele pedaçinho de vida ignorado por nós, aquele pedaçinho de tempo é o deus que nos abre as possibilidades. basta apenas um segundo ou dois pra dar um sorriso, pra encontrar uma boa resposta, pra cruzar um olhar ou decidir cruzar a rua. um segundo ou dois bastam pra construir ou destruir uma amizade; pra ganhar tudo, ou pôr tudo a perder.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

insuportável(mente) versada

os versos voltaram
me voltaram com pouca vontade, é verdade.
mas funciona como um pequeno chute no traseiro
nada que doa muito, nada que faça muito mal.

os antigos versos deixaram
aquele rastro de alguma coisa
uma poesia empoeirada
que aduba as novas palavras.

agora sou de novo, nova.
há versos de mim por toda a sala.

sábado, 29 de dezembro de 2007

dispensa. (de mim à minha insegurança)

engolida. o tempo todo eu sabia, eu previa acontecer. me deixei engolir por meus próprios meios de escape. me encurralei entre os medos e anseios, fazendo deles minha proteção e minha prisão. o que foi chorado é desconhecido de realidade, pois meu subterfúgio foi me apunhalar. são aqueles dias cinzas que a gente busca em busca de dias melhores: ora um dia cinza, ora um dia cinza claro. e há também aqueles dias azuis, mas esses só são mesmo azuis quando se tem um par de olhos amigos como companhia para admirar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

parafuso da engenhoca

Eu não entendo pq às vezes a gente precisa de uma boca desconhecida, de uma voz nova, de uma mão diferente. Mas não é pra nada disso que vocês estão pensando, não.. É em relação as coisas da vida. O que quero dizer (de uma forma nada prática) é que eu gostaria de entender pq a necessidade de um corpo estranho se aproximar com palavras pra que a gente entenda o que a gente já sabe. É como chutar aquelas máquinas de regrigerantes pra fazer a fichinha finalmente cair. Por quê será que é preciso estar deprimido e em crise, sentar na escadaria duma praça, acender um cigarro depois de ter prometido a si mesmo que ia parar com essas coisas, pra que venha alguém totalmete desconhecido e totalmente de surpresa, pra nos dizer uma coisa totalmente fora de contexto, e fazer aquela velha ficha cair? Eu fiz trajetos diferentes essa semana, dobrei em ruas diferentes e encontrei o mesmo destino. Nada mudou! Só o meio do caminho. Começo a perceber que vale a pena, pois me surpreendi até ao descobrir que caminhei menos pra chegar nos mesmos lugares.

eu em três

meu coração resitiu ao tempo pq viveu pouco, ainda é jovem. espera tanto amor dos outros quanto ele mesmo dá. mas virá um dia triste em que ele vai aprender que o amor que ele dá é muito pra esperar. minha mente é velha. velha, velha, já idosa. viveu milênios em pensamentos e agora pede ao corpo descanso. esse corpo semi-novo, com tão pouco uso, fica perdido por ser tão pouco, só um corpo, e não sabe o que fazer: um é o coração, que lhe pede pra ir à vida viver; outro é a mente, que o desgasta, o enrruga, o enche de tempo mal gasto. e por isso, talvez, eu seja mais este corpo do que mente e coração. ele sente mais, e dele se pede mais. ele comporta os outros mesmo quando não se comportam.

sou

sou a confusão em mim, sou a disfunção em mim. sou em mim os pedaçinhos, desde os inhos até os ãos. sou navegação, mesmo que sem barco. sou guia, mas sou guia sem coleira. sou o que nunca descobri, e o inverno traz o vento cantante só pra me dizer: que sou o que sou e mesmo assim, nada resta em mim que não seja ilusão.

céu nublado de chaplin

descobri que a minha vida é um filme tragicômico moderno, era pós-chaplin. descobri que não faço nada, que nada posso fazer. que só sou levada por essa maré desenfreada. as praias andaram distantes, e os olhos daqui (esses que desconhecem a própria melancolia de serem) mal enxergam as nuvens, pois há pescoços cansados de esforços corrompidos por qualquer desejo. e só algumas dessas pombas da cidade ainda lembram de como o céu é quando se pode ver o horizonte até onde ele se esconde.

abrandada pela designação

Eis que chega a quietude! Ainda resta a ansiedade pelo bater das asas, pois de pássaro novo tudo se pode esperar. Semelhanças agora são estrelas, a calçada que se anda é uma verdadeira constelação. Os espaços quentes de descanço, quando chega a hora, é um ninho de pêlos. É lá que a ameaça se mostra existente, embora seja também lá o lugar onde o céu pode ser de concreto e ainda assim, tão belo. Somos o toldo um do outro e os lazeres estão além de partes do corpo, estão em um tempo-espaço chamado "ser". Me resta redescobrir meus próprios meios de me alcançar, mas por agora entrego a quem por perto quiser, todos os caminhos de me encontrar. E ainda te tenho, meu alvo em ressalva.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

às vezes eu não quero ser quem eu sou, mesmo não me conhecendo, gostaria de poder ser algo que eu sinto distante. mesmo que fosse só pra conhecer o que está distante, mesmo que fosse só pra poder me descobrir através do que eu não sou. entenda, não é que eu seja uma má pessoa. é só que eu pouco sei desse mundo em que vivo e, desse pouco, pouco me agrada.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A poesia é minha revolução.

Não me perguntem pq não me envolvo em política, pq não levanto bandeira, pq não visto uma dessas diversas camisetas. A verdade é transparente, por isso alguns não a enxergam. A literatura é que me move, o romance é o meu motivo. A poesia é a minha anarquia íntima em relação às coisas do mundo, e em relação à todos os argumentos dos mais letrados defensores de causa. Eu vejo tudo acontecendo tão rápido e sou testemunha das passeatas que, apesar de serem em vão, são lindas amostras do que se é capaz juntos, quando se quer. Bom, eu.. Eu só defendo a liberdade de amar. Mas defendo-a todos os dias, defendo-a para todos, e defendo-a com todas as partes que conheço de mim.

lados infinitos

eu não sei do amor, mas sei que deveriam haver mais palavras para os sentimentos. não é possível que o que eu sinta por mim seja o mesmo que sinto por outros e ainda o mesmo que sinto pelo feijão temperado da minha mãe. a gente quer tanto acreditar em alguma coisa, que então inventamos algo e nos esforçamos pra tornar isso real. mas é tudo infinitamente relativo, tudo infinitamente falso e verdadeiro, tudo infinitamente infinito. não há como saber nada! eu só sei o que posso ver agora, agora é hora de mudanças. já vi explosões demais, já vi muitas marés baixas..

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

ansie[sau]dade

o acanhamento das nossas horas
às vezes me trás alguma insegurança;
me sinto um caçador desarranjado,
mirando um alvo sem lança.

domingo, 4 de novembro de 2007

senhora dos traumas do mundo

Eu me confundi, o vermelho era só meu. Por vezes me deixei enganar pensando que éramos todos ramificações de uma veia maior, mas não. O vermelho é só meu, a veia é minha única. Exclusivamente eu. Não, isso não parece nada bom. Nada elegante ou atraente. Sou a única a sangrar os pensamentos. Sou a única aqui à procura de interpretações compassivas. Sou só uma que de tão sozinha, não consegue estancar o sangramento. Sou uma só que de tanto verter à si mesma, perdeu parte do passado azul. O vermelho contamina, me aquece tornando ásperos e crus meus pedaços, dos dedos aos cabelos. Por tanto tempo me enganei, as grandes fábricas cinzas encobrem vermelho. Por tanto tempo não vi que os grandes olhos castanhos omitem o vermelho, ignorei as grandes palavras aparentemente sensatas, que comportam o vermelho. Eu me enganei, estou sangrando por anos das mais verdadeiras mentiras. O tempo todo me confundi, o vermelho era e ainda é só meu.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

lembrança inconfundível

memória de uma certeza inconstante, ela vai e vem. por tempos se esconde, se disfarça; subitamente volta a se apresentar como um carinho dado pelo tempo, uma agradável ciência da vida. é relembrar o futuro, é tornar-se tranquilo sobre o que não se pode controlar. é volição dispersa nas vertentes da linha temporal da vida, é não preocupar-se. ganhei um presente hoje, me presenteei com meu próprio ânimo. cativei os feridos aqui dentro com a tranquilidade da incerteza, a inutilidade de ser inútil. revelei à mim mesma segredos de pedra: pequenos tesouros à vista de qualquer um que queira ver a crua simplicidade de ser dispensável.

domingo, 28 de outubro de 2007

borboletas no aquário

Se eu fosse um peixe, seria um peixe fora d'água. Mas o mundo é um aquário e não sou um peixe. Sou borboleta afogada. Minhas asas se movimentam desesperadas por voar e o som da tua existência me alivia o aprisionamento de nem sempre ter certeza de já ter visto o céu. Mesmo na água, juntas sabemos bater asas.

o que deu tempo

Pavor. Pavor que vem por debaixo da pele e estravasa meus poros, que me sobe até os cabelos e os faz querer arrancar uns aos outros. Pavor que contorna meus dedos e os contrái. Pavor que não sei, que não encontro outro nome. Calor quase frio, me domina de ódio. Faz os prédios do caminho parecerem prontos a fechar a rua, me consumindo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Do que é e do que não é oportuno

Venho desvirtuando o tempo, deslocando nele os acontecimentos. Tenho coagido alguns arbítrios, meus e de outros. Tenho desejado dominar os ânimos e alguns dos meus mais indomáveis anseios. Mas num ímpeto inesperado, me surge um ensejo: devo testar agora, minhas prioridades.

domingo, 21 de outubro de 2007

te ter comigo

o tempo é ilusório e tardio longe de ti e assim minhas expectativas têm pressa de tornarem a ser. aguardo os acontecimentos com uma empolgação tão aflita que logo se volta contra mim como um tormento que não descansa até que eu me moleste. eu me esforço pra segurar aqui a impaciência, mas existe um correio impulsivo em minha boca. falo com querer, mas falo sem pensar. nada faz com que eu espere um momento adequado, pois o apropriado em mim é a vontade como guia.

eu aflita, a lua hermafrodita

leve frio, depois da hora-auge da noite. o batalhão de desimpedidos já levantava acampamento. abrubtamente, é o que penso: as coisas como eu as lembro. o som dos motores pouco me vale, pouco me atrai. os motores internos dos peitos frios é que me dizem. a laranja que me desce pouco me vale, mas atrai. é como subterfúgio dos olhares deles, que escoltam como um pequeno batalhão deixado pra trás, cada passo teu. tu se contraria seguindo essas ordens, eu vejo com o meu motor nesse peito frio.

sábado, 20 de outubro de 2007

autógrafos

é tudo tão intenso aqui dentro, que dói. até os prazeres me dóem. as brisas que se apresentam com a noite, como num musical cheio de luzes, alcançam minha pele com uma delicadeza tão selvagem que se tornam agressivos seus carinhos. me finalizo na grama, rodeada por brisas orgânicas como os pensamentos, os poucos que me restam quando alguém começa a morrer em meu universo. tão logo descobrimos que se aproxima o distanciamento, enlouquecemos. saímos de órbita tão bruscamente que os ossos parecem não pertencerem mais ao mesmo lugar. essa noite eu canto em silêncio pras luzes que brilham constantes entre os corpos. peço com dor em meus prazeres que eu possa dar adeus às despedidas!

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

minha matéria é insuficiente pros sistemáticos

quem vai querer me interpretar? o abstrato feito de carne e sangue, o abstrato absorvido pelos meus órgãos. quem vai se aventurar nas minhas estórias? o concreto feito de cores e sons, o concreto feito de tudo que não se pode tocar com as mãos.

a intimidade em mim é vício

andei fazendo sexo com todas as coisas, e amor. a poesia desce e sobe com as formigas nas árvores. eu tenho e sempre tive as respostas, o vento trouxe algumas perguntas e tudo se encaixou. sou libélula que brilha com a claridade do sol que reflete em paredes brancas e o meu voar nunca me cansa. as coisas todas do mundo a cada instante me namoram e quando eu lhes dou atenção, trocamos prazeres.

estava eu no meu lugar, veio a cólera me fazer mal

tudo parece um sonho já vivido de um tempo remoto, distante e clichê. parece o retorno de anos atrás, quando eu invadia a janela branca da casa de madeira com meus bilhetes. agora sou eu que estou aqui, não tranquila, mas com a paixão já apaziguada em mim. meu sossego é breve e eis que meu ensejo me aparece: a ocasião esperada e talvez, pouco desejada. o meu súbito ingresso nesta zona perigosa, me faz desaparecer em mim. me oculto de alguns dos meu olhos pra enxergar os filhos dos meus pecados, pequenos erros cometidos em nome de alguns desejos. erros honrosos mas pouco gloriosos, a sinceridade cúmula que me habita e afugenta meus queridos. os transformo em sombra e mesmo que alguns não venham a ser literárias sombras em meu percurso desmedido, sempre se tornam fantasmas vagando em meus pensamentos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

agora é isso

"teu idioma começa a me fazer sentido. agora eu esperararia horas pra poder te fazer subir as escalas comigo. a escala do tempo, da compreensão, as escaladas dos sonhos futuros."

terça-feira, 2 de outubro de 2007

interrogação de uma tarde de sol

Me contrario constantemente ao tentar decidir o que quero, o que penso.Penso querer ou quero pensar? Deve haver alguém aqui, deve haver um outro morador em mim. Se não há, só posso concluir que sou oposta à mim mesma. Diriam de mim, inconstante. Mas inconstante? Assim é o ser humano. Que mesmo querendo se firmar, se contradiz. Vejo todos tentando se definir alguma coisa e sendo constantemente contraditos pelo que fazem. E eu? Eu sou um ser humano? (...) É um planeta contraditório esse, onde tentamos sempre desafiar o que nos mantém vivos. Eu desafio constantemente meu amor-próprio, desafio meus órgãos, desafio meus gostos. Somos todos passivo-suicidas, afinal? Pois eu vivo constantemente a desafiar meus pensamentos, superlotando minha cabeça. Eu me desafio constantemente ao tentar conviver com as dores que me trazem meu sobejo de sonhos e meu cúmulo de romantismo por um mundo que fede à lixo de cozinha. E não sei reparar o mal que meus desafios me causam, mas eu sempre vejo pontos de interrogação acima da minha cabeça, como desenhos em quadrinhos. Nada disso segue alguma linha de raciocínio, mas eu não preciso seguir coisa alguma afinal.. eu já nasci pro mundo, mas ainda não nasci pra mim.

emudecer

quem foi que me deu uma língua?
quem foi que me deu cordas vocais?
eu não queria, não pedi por elas.
(e sobre isso, não tenho nada a dizer)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

tenho sonhos, tenho ilusões

Esse universo não é meu mas eu quero refazê-lo. O sons saem por esse buraco no espaço, qualquer espaço. Imagino que esse buraco seja um túnel, pra ser possível assimilar com essa cabeça presa à parâmetros humanos, que tanta coisa saia de lá. Saem os sons. Eles são tudo o que existe, e cada momento são uma cor. É quem os vê ou percebe que decide o que são. São elétrons, são prótons. E são tão irmãos que são todos nêutrons. Há um ventilador feito de nêutrons no fim do túnel, que traz todos os sons. Os sons são luzes e são plástico. E minha mãe e meu pai são o túnel dos sons.

intrusos (ou eu intrusa, por ser uma só)

Não goste de mim, não queira gostar de mim. Tudo isso, minhas interpretações distorcidas da realidade comum, me é passagem pra um mundo próprio, isolado dos fatos. Me ocorreu agora que algo pode não ser criação minha. Me ocorreu a existência de algo incontrolável, capaz de movimentar o tempo e me transformar em matéria perdida. Me ocorre agora que somente meu corpo sofre os efeitos colaterais do tempo. Parte do que sou, seja lá o que devo ser, está à parte disso, distante e ingnorando o tempo, vivendo com clareza essa ilusão de mundo. Me ocorre agora que não há boleta que possa me tornar um de vocês.

sábado, 29 de setembro de 2007

prisioneira de mim

me sinto abusada pela moléstia dos meus próprios pensamentos. há dias estou nessa inquietude, resultante das minhas próprias armadilhas. a vontade é sair do corpo, abandonar esse antro. deixar escapar de mim esses desejos quase tolos pela sua ingenuidade. deixaria de ser repartida em mim, eu deixaria de ser tantas. assistiria em um telão à todas as cenas da minha vida, ganharia um oscar. dirigiria imparcialmente minhas escolhas, cada uma delas. quero ser testemunha neutra de tudo o que ver, cada atropelo meu. nem mesmo quero fazer comédia das minhas sandices, essas opções burras. quero só ver, analisar com a indiferença que à nada consigo ter, não estando aqui. sou prisioneira do sentimento de ser isso. não sei não ser eu nem por um instante e isso me mata!

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

amanhã

hoje vou recriar antes de acontecer e depois, te mostro como o futuro é.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

brinde entre amigos

Ela pega a taça de vinho e diz:
"Eu faço um brinde à nós. Que vamos esta noite, ao dormir, pra um museu. Um museu sombrio aonde estão expostos como peças de antiguidade, todas as nossas oportunidades perdidas. Faço esse brinde à nós. Que possamos voltar à salvo desse passeio ou que, ao menos, possamos conviver com os arrependimentos."

abstrato escrito

Como eu me emociono com as palavras! Elas me servem de escape e ainda assim, me empolgam. Gosto tanto de vê-las, são pensamentos e emoções que se transformam em sentimento escrito. Gosto de ver o abstrato nas palavras. Elas são tão elas, tão inteiras e formadas, mas se desmontam quando absorvidas. E dentro das pessoas, as palavras recriam os contextos, se misturam e se matam, perdem seu sentido. O óbvio é de cada um, um para cada um. Só que lá dentro as palavras morrem, desmanchando-se em pensamentos e emoções. Assim vejo como gosto das palavras! Sou meu próprio dicionário e consulto só a mim pra entender o sentido delas.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

fenda embriagada

foram nesses vãos que vocês me deram, nessas brechas por onde escaparam algumas possibilidades que, recentemente, procurei alguma verdade de mim. não é pouco fácil de compreender o quão incapaz foi essa busca mas continuei a insistir, me fazendo de maluca sem ouvir à mim mesma. neste caminho ingênuo que busquei, descobri que o perigo de se procurar é o risco de não se encontrar. foi assim que tomei pra mim mil interpretações. quanto à vocês, ainda estão por aí. vagando aqui dentro, desgovernados sem qualquer orientação de pra onde ir. mas é que eu ainda não sei qual caminho indicar. o rio que me espelha é de águas turvas e a maior parte do rio ainda não desceu.

domingo, 23 de setembro de 2007

aparte do real

um dia a poesia brotou e se dilatou em mim, agora eu vivo num mundo que não existe. há aqui um romantismo aumentado que dorme na minha cama e caminha comigo na rua. há aqui um tumulto perplexo das coisas. e é por isso que eu sou um pé no saco!

terça-feira, 18 de setembro de 2007

interesse desviado

tolice talvez. bobagem minha, besteira! é uma fração minha que é assim, de vez em quando vem à tona e encabula meu impulso. uma parte que não pensou, ou pensou do outro lado da cabeça, pois atravessando essa ponte de individualidade, encontro muitas razões pra ser tola. meus pensamentos, às vezes patetas, me indicam o caminho dos fios: os fios elétricos que nos dão energia pra ir e vir, pra torcer e pra esperar acontecer. a eletricidade que liga os telefones, a eletricidade que liga o acaso dos nossos encontros.
ainda assim, minha honestidade que vive em cúmulo me impede de qualquer disfarce: demonstro minhas tolices sem artifícios, acho mais bonito assim.

sábado, 15 de setembro de 2007

fugas infelizes, sem escapatória

tento sem sucesso, uma vez atrás da outra, mas não me escapo. e a aflição por pensar que minhas tentativas sempre serão falhas me mantém cada vez mais presa à este corpo deslocado do tempo, onde faço moradia indesejada dessa minha alma contraditória, tão renitente e tão evasiva.

interposto do platônico

intercalam em nós meus pensamentos:
penso em ti, não penso em mim..
penso em mim, não penso em ti..
vejo a inevitabilidade do platônico:
mesmo sem querer, só penso em nós dois.

te ver vindo

registrei em espírito o que me vinha a ser teu andar até mim. eu na porta da casa, entre a pequena multidão que esperava para começar a invadir teu lugar, molestada por aquele murmurinho de bocas viciadas em falar, e tu chegava até mim. caminhava macio, numa lentidão à qual se responsabilizavam meus olhos. vinha até apertando o passo, num ritmo que acelerava meus batimentos. registrava então em corpo, o teu andar. meu olhos ao te olhar vir, de certa maneira se desculpavam pelo meu sorriso inevitavelmente guardado, mas justificável: se assim não fosse, perigava a velocidade da sensação atirar boca à fora meu coração.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

limpando arestas

Falei contigo. Não te disse, mas adiantei. Marquei uma possível troca, quero palavrear os acontecidos. Quero te falar, te contar. Te dizer como foi que aqui dentro de mim aconteceu. Te mostrar a verdade vista daqui, te mostrar. Quero te lembrar de que, ao me ajudar a errar, tu também errou. Vou falar. Mas quero mais que isso, quero analisar contigo. Quero ver o que foi errado, pois ainda julgo neutra a nossa situação. Já existe em tudo um equilíbrio, desde o nascimento próprio da coisa. E nisso também há um ponto de igualdade. Quero examinar contigo o que foi e, contigo, criticar o que está sendo. Quero caminhar contigo, nisso não mudei de idéia. Minhas vontades ainda são, meus sentimentos ainda vagam em mim esperando tua colheita deles. E eu só posso dizer mais a mim, quando ouvir de ti algum gesto que me mova pra alguma direção.

duas caras

Vazio. Um quarto vazio dentro de mim, um quadrado em branco. Ausência de sentimento, sensação de mim ausente em mim. Sem controle das minhas mãos, que seguram um objeto qualquer. E em alguns movimentos desclassificados de meus braços, me lanço no espaço do quarto. Corro pra cada parede que vem em mim e marco, com o objeto qualquer, uma janela. Avisto enfim a rua, alguma atividade social. Folhas voam com vento, contentes de si, e pássaros vão pelas calçadas, caminhando entre as pessoas. Me vem um sentimento então, me sinto acoada. Observada por quatro janelas minhas. Não há como voltar atrás, o sol já entrou no quarto. Passado os momentos de arrependimento desesperado, me despeço relutante de qualquer sombra de minhas paredes.

sábado, 8 de setembro de 2007

Diário de uma paixão apressada.

Vejo em ti o que vai ser de mim um dia e é como se um espelho me mostrasse cada detalhe do meu corpo futuro através do teu. E cada expressão do teu rosto me vem sem querer como um espasmo e controla meu rosto e lembro de que é parte tua que já é minha. Um jeito teu que já copiei sem querer, que me mostra as linhas que nos prendem à todo resto desse universo que a gente criou sozinhos.

E é um espelho sim, mas feito de água. Quase me confundo, me pensando liquidificar por inteiro. E entre nós, um oceano. Mas um oceano é pouco pra quem se arrisca à mergulhar. Ao amar, somos peixes desbravadores, largamos a segurança dos cardumes e nos lançamos um de encontro ao outro.

Me ocorre aqui então um fato: minha dúvida. Ainda não te vi peixe, mas sou sim um peixe. Nado em ti como em águas tranqüilas e, longe de ti, existem águas furiosas que me levam sem que eu possa reagir. É a tua presença em meus pensamentos de peixe amante. Quero te ver peixe, quero te ver nadar em mim. Eu sou um rio, quem desce o morro em que tu estás. Na minha beira seguem os escoteiros, seguem outros animais. Na minha beira ficam pedras e raízes de árvores antigas que me dizem puro H2O. Bebe de mim, agora já sou rio. Bebe em mim, já que não sou mais peixe. O desespero por te ter por perto me tornou corrente, minhas águas se agitam quando vens mergulhar. Não te quero raiz, como quero as árvores, não te quero intacto e imóvel, como quero as pedras. Te quero a caminhar, a me dar a mão. Sou sereia.

Agora, ao que tu me vê, me transformei. Agora é paixão, vou te cantar pra encantar teu coração. E ao som da tua resposta, ao gesto da tua resposta, serei nova. Agora sim, mulher novamente. Assisto por alguns momentos diários meu reflexo no espelho, só pra poder te ver. Somos assim quando distantes um do outro, somos eu. Porque não posso te ver, e, dentro dessa cabeça, dessa minha cúpula cerebral, teu rosto se muda, transformando-se em mil outros rostos que se misturam em uma multidão dentro de mim. Às vezes te perco por alguns momentos, mas então vejo meu reflexo no espelho e te encontro. Te vejo em mim tão sereno que, ao ir dormir, estou serena também. Fecho os olhos pensando estar encostada em ti, e sonho contigo sim. Nos meus sonhos nosso amor é um pássaro que quer crescer pra voar. Ele tem todas as cores, e nosso riso o alimenta. Nos meus sonhos, tu é urso. Macio e quente, onde encaixo meus braços e durmo tranqüila. Não preciso dormir pra sonhar, nem de drogas pra ter visões individuais.

Quero te dizer isso, quero que tu saiba disso. Mas ainda não descobri um jeito de mostrar isso à ninguém. Mostrar a maneira como o calendário se forma visualmente no meu cérebro, a forma como vejo a tabuada. A forma como, ao dormir contigo, respiro perto do teu rosto e sinto o calor me derretendo, e como é tão real como qualquer outra coisa que se possa ver. Eu vejo tudo de olhos fechados. E é isso que quero dizer, quero dizer que a gente conta o tempo mas o tempo não conta. O tempo inventa, disfarça e nos engana. Essa ilusão de tempo nos impede de viver o que já pode ser vivido. Nós não precisamos de mais tempo. Nós não precisamos de mais espera se, até ao dormir estamos juntos, já tivemos vida suficiente pra eu poder te querer tanto assim. Eu quero tanto te dizer isso tudo. Eu quero tanto te ver peixe! Pra gente mudar juntos, ser todo tipo de bicho e objeto. Pra ti poder me dar a mão enquanto eu olho pela janela do carro. Pra gente poder correr da chuva algum dia. Pra gente poder correr pra chuva algum dia. Pra gente correr, correr, correr por tudo, por todos os cantos desse mundo que eu vivo, que me impede de qualquer outra viagem, pois é tão imenso, cheio de coisas pra encontrar. Tão colorido e tão preto e branco. Tão miniatura, cheio de detalhes pra descobrir. Pra gente correr por todo meu mundo, pra gente misturar nossos mundos, deixar esse daqui pra trás. Pra gente viver tudo, correr, correr. Depois, pra gente encontrar o lugar mais nosso pra descansar. E dormir, dormir como se o mundo não existisse mais. Pra sermos um o mundo do outro, e nunca mais termos que nos lembrar. Pra só viver. Pra só estar. Pra fazer durar o instante mais momentâneo que se possa encontrar. Quebrar o relógio, ignorar de vez o tempo. Pra criar um presente infinito-inacabável. Quero tanto isso, que choro. Choro por dentro e por fora. Me choro e te choro, choro nós dois. Choro o que poderia ter sido, mas mais que isso: choro o que ainda não foi. É a maldita dúvida que me dá a dor pra me sentir viva, me dá a ansiedade por tua pele, mas que me angustia. Me encolhe feito criança sozinha e me faz chorar.

Já derramei minha água, muita água minha, através de várias gotas. Cada dia uma gota de cada olho e, sinto aos poucos, meu corpo endurecendo. Virando matéria mais grossa pra, como eu disse, ser mulher. E vou perdendo a moleza de ser líquida, meu corpo vai ficando cada vez mais sólido. E agora chega, pois senão não sou mais mulher. Serei rocha fria, inigualável dor de amor sofrido. Não quero ser rocha, não quero ser. Lembro que já quis, quis ser forte, mas a força de uma rocha, de uma parede, é fraca se comparada a força de um inseto, que mesmo com suas asinhas levezinhas e miúdas, é capaz de tanto se considerarmos seu tamanho e habilidade sutil.

Não serei parede, nem rocha. Quero que tu possa ver através de mim, quero mostrar um pouco de mim até que, quando souberes o suficiente, tudo suma. Vou ser transparente, como vidro. Mas não serei vidro, quero ser mais leve que vidro. Precisamos ambos da minha leveza. Serei então transparente feito ar. E agora preciso do teu calor. Me dá teu calor, me esquenta! Quero evaporar a água de cada célula viva do meu corpo, quero evaporar. Quero virar nuvem, voar, quero te levar! E de lá, vamos ver o mundo não se despedir e vamos então ter certeza de pra onde ir.

Nós já vivemos o princípio, agora vem o próximo degrau dessa escada horizontal: o durante. O intermediário. O causador da insegurança, a dúvida. Mesmo tendo eu criado acordes, mesmo tendo eu jogado ao nosso oceano meus poemas pra ti, mesmo assim, não te vi me mostrar mais do que só desejo pelos meus lençóis azuis, pela minha lagoa, pela certeza de que estou aqui quando quiseres vir. É insegurança que dói, mas que aviva minha pele e sinto de leve o frescor do vento que às vezes dá as caras. Frescor que alivia a minha febre e me dá algum descanso do pensar em ti.

Agora sim, morri. Nasce comigo, vamos fazer um filho: um pecado. O pecado da vaidade ou uma coisa qualquer. Eu prefiro a vaidade de uma coisa qualquer.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

eu criei

que lindo o que eu criei: cinco dedos em uma mão! um ser humano que me segue na numerologia do pensamento. e cabelos, que crescem e não se amedrontam de crescer. e pêlos, que se encontram por toda pele. e meus filhos podem se descobrir ao fazer amor, encontrando em suas peles detalhes em segredo. que lindo o que eu criei! e só agora vejo, fui eu mesma.

pessoalidade disfarçada

não posso te ver, não posso respirar teus movimentos pela janela da caixa eletrônica. só recebo o que tu filtra, com a mente distante e talvez, desinteressada. não sei. nem mesmo sei com que estado da mente é que filtras as palavras que me manda. e fico aqui, sozinha, me sentindo de alguma forma, na tua companhia.

domingo, 26 de agosto de 2007

imperfeição

viciados em nos viciar..
quem pode ser o primeiro a apontar
um defeito, um vício ou um caminhar?
troquei o caminho do meio
pelas calçadas em frente ao bar.
me viciei em me amortecer
e ninguém pode me culpar!

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

poema oculto

abre parênteses. esse é um poema entre parênteses, que é pra essa gente não ler da gente. lembra daquele caso? o caso do meu atraso? pois ele virou meu casaco, ando com frio. e só de pensar no caso, me sinto largada ao acaso. será que a vida vai acompanhar meu relógio, ou devo acelerar os ponteiros pra ver a vida que poderá vir à vir, se encaixar na vida que planejei pra mim? ah, quantos casos.. o caso é que minha casa não é mais a mesma. aqui dentro jaz eu mesma, antes do tempo. fecha parênteses.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

lembranças turvas

às vezes não tenho certeza de já ter realmente te visto. será que foi minha imaginação?
teu rosto é diferente em cada foto que vejo.. e nas lembranças, lembro de mil outros rostos! como se fosses tu um coringa, um camaleão, alguém com mil disfarces.. ou somente alguém que eu nunca realmente vi. talvez eu. talvez tenha visto só a mim; e quando tu chegava, eu me intimidava e olhava só pra dentro.. sim, só olhava pra dentro de mim. e seria um engano dizer-te o contrário, que olhei dentro de ti, pois a cada minuto que passa, quando penso.. não te entendo! não te conheço! és um mistério pra mim! e de nada adiantam minhas investigações porque seja lá qual for minha conclusão de ti, será no fim uma conclusão de mim. quem és tu que eu quero tanto sem ter visto? e como pode a lembrança de cada rosto teu me fazer, ao mesmo tempo que me assusta, ter absurda vontade de te ter por perto? a tua voz eu já nem lembro, talvez nunca tenhamos falado. tenha sido talvez, a minha imaginação.. pq minhas tantas perguntas? pq essa minha confusão? eu lembro tão bem do primeiro dia! talvez tenha sido o nosso único dia.. e de lá pra cá, talvez tenha sido tudo um sonho! e amanhã acordaremos perguntando: que dia é hoje? verei teu primeiro rosto, e lembrarei da tua voz ao darmos bom dia.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

pedra sabão

invado teus olhos de pedra
tão firmes
com a água pura do meu olhar
vejo os contornos se criando
esbranquiçando tão belamente
os desenhos de cada sensação
as palavras mudas do olhar

ah, que bela noite essa
que vimos terminar
e que belo dia juntos observamos em silêncio nascer

e fica a ansiedade
a espera por outro encontro mudo
e a fantasia dos desenhos
que meus olhos farão nos teus

chuva em mim

Pensei
que com o tempo
as coisas
iriam
clarear
até tudo
transparecer,
mas o céu
está nublado
e sinto
que durmo
sempre
com os pés molhados.

poema em mutação

se um tigre de pedra
me roubasse o coração
faria o trem correr na direção do vento
inventaria um hino, ou qualquer canção
pra buscar todos os perdidos
encontraria em algum lugar solitário
os que passaram sem dizer uma palavra
e voltaria ao lugar de partida
com os pés de quem correu anos sem sair do lugar
uma mente ansiosa, o coração na eterna espera
do retorno da antiga criança
coroada por borboletas
pois já
agora o que resta é só impaciência

santos

será mesmo possível se manter cru neste mundo omnívoro? se não, então sou mais um iludido com promessas aparentes. bom, acho que somos todos iludidos de qualquer maneira. as coisas vão nos comendo quando pensamos estar certos ao achar que estamos nós a comê-las, por motivos vãos. e mesmo um pequeno adulto se perde ao acordar de um sonho ruim. e até os santos têm sonhos! e são deles os sonhos que mostram os mais vaidosos desejos de engolir as coisas. e tu, és santo ou pequeno homem? pois só conheço um homem verdadeiro, esse morreu ao ver o céu pintado de fumaça.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

súbito

Eu perdi uma coisa importante hoje, só não sei o que é. O caso é que esqueci uma coisa importante hoje, deve ser isso. Acho que nem tenho mais controle sobre as coisas, acho que nunca tive. Elas são vivas sozinhas e fogem de mim quando eu as ignoro. Fogem de mim e tão logo eu as percebo indo, já é sempre tarde, pois meu ritmo é lento diante o ritmo das coisas, elas fluem com mais facilidade pelo mundo porque se contentam em só ser, já eu, quero sempre saber pq sou.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

conto de uma noite

Dentro dela surgiu do nada, entre as suturas da última guerra, uma clareza incrívelmente nova: a de não se desesperar. Não havia mais empolgação nem para desempolgar-se, cutucou com o dedo indicador o machucado que nem aberto, nem cicatrizado, só estava a pele vermelha e seca, mas por dentro ainda o sangue indicando que ali doía. Lembrou que, para sua surpresa, havia encontrado alguns outros fugitivos da vida, bebendo por aí em alguma noite fria, nessa cidade que parecia estar diminuido com os dias numa velocidade tão sufocante que a enclausurava. Mas isso deu um leve ânimo, apontou a direção de algo novo. Era finalmente um lindo verme a se alimentar de carne morta, a pequena possibilidade esperançosa de que algo novo estaria por vir.