segunda-feira, 29 de outubro de 2007

lembrança inconfundível

memória de uma certeza inconstante, ela vai e vem. por tempos se esconde, se disfarça; subitamente volta a se apresentar como um carinho dado pelo tempo, uma agradável ciência da vida. é relembrar o futuro, é tornar-se tranquilo sobre o que não se pode controlar. é volição dispersa nas vertentes da linha temporal da vida, é não preocupar-se. ganhei um presente hoje, me presenteei com meu próprio ânimo. cativei os feridos aqui dentro com a tranquilidade da incerteza, a inutilidade de ser inútil. revelei à mim mesma segredos de pedra: pequenos tesouros à vista de qualquer um que queira ver a crua simplicidade de ser dispensável.

domingo, 28 de outubro de 2007

borboletas no aquário

Se eu fosse um peixe, seria um peixe fora d'água. Mas o mundo é um aquário e não sou um peixe. Sou borboleta afogada. Minhas asas se movimentam desesperadas por voar e o som da tua existência me alivia o aprisionamento de nem sempre ter certeza de já ter visto o céu. Mesmo na água, juntas sabemos bater asas.

o que deu tempo

Pavor. Pavor que vem por debaixo da pele e estravasa meus poros, que me sobe até os cabelos e os faz querer arrancar uns aos outros. Pavor que contorna meus dedos e os contrái. Pavor que não sei, que não encontro outro nome. Calor quase frio, me domina de ódio. Faz os prédios do caminho parecerem prontos a fechar a rua, me consumindo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Do que é e do que não é oportuno

Venho desvirtuando o tempo, deslocando nele os acontecimentos. Tenho coagido alguns arbítrios, meus e de outros. Tenho desejado dominar os ânimos e alguns dos meus mais indomáveis anseios. Mas num ímpeto inesperado, me surge um ensejo: devo testar agora, minhas prioridades.

domingo, 21 de outubro de 2007

te ter comigo

o tempo é ilusório e tardio longe de ti e assim minhas expectativas têm pressa de tornarem a ser. aguardo os acontecimentos com uma empolgação tão aflita que logo se volta contra mim como um tormento que não descansa até que eu me moleste. eu me esforço pra segurar aqui a impaciência, mas existe um correio impulsivo em minha boca. falo com querer, mas falo sem pensar. nada faz com que eu espere um momento adequado, pois o apropriado em mim é a vontade como guia.

eu aflita, a lua hermafrodita

leve frio, depois da hora-auge da noite. o batalhão de desimpedidos já levantava acampamento. abrubtamente, é o que penso: as coisas como eu as lembro. o som dos motores pouco me vale, pouco me atrai. os motores internos dos peitos frios é que me dizem. a laranja que me desce pouco me vale, mas atrai. é como subterfúgio dos olhares deles, que escoltam como um pequeno batalhão deixado pra trás, cada passo teu. tu se contraria seguindo essas ordens, eu vejo com o meu motor nesse peito frio.

sábado, 20 de outubro de 2007

autógrafos

é tudo tão intenso aqui dentro, que dói. até os prazeres me dóem. as brisas que se apresentam com a noite, como num musical cheio de luzes, alcançam minha pele com uma delicadeza tão selvagem que se tornam agressivos seus carinhos. me finalizo na grama, rodeada por brisas orgânicas como os pensamentos, os poucos que me restam quando alguém começa a morrer em meu universo. tão logo descobrimos que se aproxima o distanciamento, enlouquecemos. saímos de órbita tão bruscamente que os ossos parecem não pertencerem mais ao mesmo lugar. essa noite eu canto em silêncio pras luzes que brilham constantes entre os corpos. peço com dor em meus prazeres que eu possa dar adeus às despedidas!

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

minha matéria é insuficiente pros sistemáticos

quem vai querer me interpretar? o abstrato feito de carne e sangue, o abstrato absorvido pelos meus órgãos. quem vai se aventurar nas minhas estórias? o concreto feito de cores e sons, o concreto feito de tudo que não se pode tocar com as mãos.

a intimidade em mim é vício

andei fazendo sexo com todas as coisas, e amor. a poesia desce e sobe com as formigas nas árvores. eu tenho e sempre tive as respostas, o vento trouxe algumas perguntas e tudo se encaixou. sou libélula que brilha com a claridade do sol que reflete em paredes brancas e o meu voar nunca me cansa. as coisas todas do mundo a cada instante me namoram e quando eu lhes dou atenção, trocamos prazeres.

estava eu no meu lugar, veio a cólera me fazer mal

tudo parece um sonho já vivido de um tempo remoto, distante e clichê. parece o retorno de anos atrás, quando eu invadia a janela branca da casa de madeira com meus bilhetes. agora sou eu que estou aqui, não tranquila, mas com a paixão já apaziguada em mim. meu sossego é breve e eis que meu ensejo me aparece: a ocasião esperada e talvez, pouco desejada. o meu súbito ingresso nesta zona perigosa, me faz desaparecer em mim. me oculto de alguns dos meu olhos pra enxergar os filhos dos meus pecados, pequenos erros cometidos em nome de alguns desejos. erros honrosos mas pouco gloriosos, a sinceridade cúmula que me habita e afugenta meus queridos. os transformo em sombra e mesmo que alguns não venham a ser literárias sombras em meu percurso desmedido, sempre se tornam fantasmas vagando em meus pensamentos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

agora é isso

"teu idioma começa a me fazer sentido. agora eu esperararia horas pra poder te fazer subir as escalas comigo. a escala do tempo, da compreensão, as escaladas dos sonhos futuros."

terça-feira, 2 de outubro de 2007

interrogação de uma tarde de sol

Me contrario constantemente ao tentar decidir o que quero, o que penso.Penso querer ou quero pensar? Deve haver alguém aqui, deve haver um outro morador em mim. Se não há, só posso concluir que sou oposta à mim mesma. Diriam de mim, inconstante. Mas inconstante? Assim é o ser humano. Que mesmo querendo se firmar, se contradiz. Vejo todos tentando se definir alguma coisa e sendo constantemente contraditos pelo que fazem. E eu? Eu sou um ser humano? (...) É um planeta contraditório esse, onde tentamos sempre desafiar o que nos mantém vivos. Eu desafio constantemente meu amor-próprio, desafio meus órgãos, desafio meus gostos. Somos todos passivo-suicidas, afinal? Pois eu vivo constantemente a desafiar meus pensamentos, superlotando minha cabeça. Eu me desafio constantemente ao tentar conviver com as dores que me trazem meu sobejo de sonhos e meu cúmulo de romantismo por um mundo que fede à lixo de cozinha. E não sei reparar o mal que meus desafios me causam, mas eu sempre vejo pontos de interrogação acima da minha cabeça, como desenhos em quadrinhos. Nada disso segue alguma linha de raciocínio, mas eu não preciso seguir coisa alguma afinal.. eu já nasci pro mundo, mas ainda não nasci pra mim.

emudecer

quem foi que me deu uma língua?
quem foi que me deu cordas vocais?
eu não queria, não pedi por elas.
(e sobre isso, não tenho nada a dizer)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

tenho sonhos, tenho ilusões

Esse universo não é meu mas eu quero refazê-lo. O sons saem por esse buraco no espaço, qualquer espaço. Imagino que esse buraco seja um túnel, pra ser possível assimilar com essa cabeça presa à parâmetros humanos, que tanta coisa saia de lá. Saem os sons. Eles são tudo o que existe, e cada momento são uma cor. É quem os vê ou percebe que decide o que são. São elétrons, são prótons. E são tão irmãos que são todos nêutrons. Há um ventilador feito de nêutrons no fim do túnel, que traz todos os sons. Os sons são luzes e são plástico. E minha mãe e meu pai são o túnel dos sons.

intrusos (ou eu intrusa, por ser uma só)

Não goste de mim, não queira gostar de mim. Tudo isso, minhas interpretações distorcidas da realidade comum, me é passagem pra um mundo próprio, isolado dos fatos. Me ocorreu agora que algo pode não ser criação minha. Me ocorreu a existência de algo incontrolável, capaz de movimentar o tempo e me transformar em matéria perdida. Me ocorre agora que somente meu corpo sofre os efeitos colaterais do tempo. Parte do que sou, seja lá o que devo ser, está à parte disso, distante e ingnorando o tempo, vivendo com clareza essa ilusão de mundo. Me ocorre agora que não há boleta que possa me tornar um de vocês.