sábado, 29 de dezembro de 2007

dispensa. (de mim à minha insegurança)

engolida. o tempo todo eu sabia, eu previa acontecer. me deixei engolir por meus próprios meios de escape. me encurralei entre os medos e anseios, fazendo deles minha proteção e minha prisão. o que foi chorado é desconhecido de realidade, pois meu subterfúgio foi me apunhalar. são aqueles dias cinzas que a gente busca em busca de dias melhores: ora um dia cinza, ora um dia cinza claro. e há também aqueles dias azuis, mas esses só são mesmo azuis quando se tem um par de olhos amigos como companhia para admirar.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

parafuso da engenhoca

Eu não entendo pq às vezes a gente precisa de uma boca desconhecida, de uma voz nova, de uma mão diferente. Mas não é pra nada disso que vocês estão pensando, não.. É em relação as coisas da vida. O que quero dizer (de uma forma nada prática) é que eu gostaria de entender pq a necessidade de um corpo estranho se aproximar com palavras pra que a gente entenda o que a gente já sabe. É como chutar aquelas máquinas de regrigerantes pra fazer a fichinha finalmente cair. Por quê será que é preciso estar deprimido e em crise, sentar na escadaria duma praça, acender um cigarro depois de ter prometido a si mesmo que ia parar com essas coisas, pra que venha alguém totalmete desconhecido e totalmente de surpresa, pra nos dizer uma coisa totalmente fora de contexto, e fazer aquela velha ficha cair? Eu fiz trajetos diferentes essa semana, dobrei em ruas diferentes e encontrei o mesmo destino. Nada mudou! Só o meio do caminho. Começo a perceber que vale a pena, pois me surpreendi até ao descobrir que caminhei menos pra chegar nos mesmos lugares.

eu em três

meu coração resitiu ao tempo pq viveu pouco, ainda é jovem. espera tanto amor dos outros quanto ele mesmo dá. mas virá um dia triste em que ele vai aprender que o amor que ele dá é muito pra esperar. minha mente é velha. velha, velha, já idosa. viveu milênios em pensamentos e agora pede ao corpo descanso. esse corpo semi-novo, com tão pouco uso, fica perdido por ser tão pouco, só um corpo, e não sabe o que fazer: um é o coração, que lhe pede pra ir à vida viver; outro é a mente, que o desgasta, o enrruga, o enche de tempo mal gasto. e por isso, talvez, eu seja mais este corpo do que mente e coração. ele sente mais, e dele se pede mais. ele comporta os outros mesmo quando não se comportam.

sou

sou a confusão em mim, sou a disfunção em mim. sou em mim os pedaçinhos, desde os inhos até os ãos. sou navegação, mesmo que sem barco. sou guia, mas sou guia sem coleira. sou o que nunca descobri, e o inverno traz o vento cantante só pra me dizer: que sou o que sou e mesmo assim, nada resta em mim que não seja ilusão.

céu nublado de chaplin

descobri que a minha vida é um filme tragicômico moderno, era pós-chaplin. descobri que não faço nada, que nada posso fazer. que só sou levada por essa maré desenfreada. as praias andaram distantes, e os olhos daqui (esses que desconhecem a própria melancolia de serem) mal enxergam as nuvens, pois há pescoços cansados de esforços corrompidos por qualquer desejo. e só algumas dessas pombas da cidade ainda lembram de como o céu é quando se pode ver o horizonte até onde ele se esconde.

abrandada pela designação

Eis que chega a quietude! Ainda resta a ansiedade pelo bater das asas, pois de pássaro novo tudo se pode esperar. Semelhanças agora são estrelas, a calçada que se anda é uma verdadeira constelação. Os espaços quentes de descanço, quando chega a hora, é um ninho de pêlos. É lá que a ameaça se mostra existente, embora seja também lá o lugar onde o céu pode ser de concreto e ainda assim, tão belo. Somos o toldo um do outro e os lazeres estão além de partes do corpo, estão em um tempo-espaço chamado "ser". Me resta redescobrir meus próprios meios de me alcançar, mas por agora entrego a quem por perto quiser, todos os caminhos de me encontrar. E ainda te tenho, meu alvo em ressalva.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

às vezes eu não quero ser quem eu sou, mesmo não me conhecendo, gostaria de poder ser algo que eu sinto distante. mesmo que fosse só pra conhecer o que está distante, mesmo que fosse só pra poder me descobrir através do que eu não sou. entenda, não é que eu seja uma má pessoa. é só que eu pouco sei desse mundo em que vivo e, desse pouco, pouco me agrada.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A poesia é minha revolução.

Não me perguntem pq não me envolvo em política, pq não levanto bandeira, pq não visto uma dessas diversas camisetas. A verdade é transparente, por isso alguns não a enxergam. A literatura é que me move, o romance é o meu motivo. A poesia é a minha anarquia íntima em relação às coisas do mundo, e em relação à todos os argumentos dos mais letrados defensores de causa. Eu vejo tudo acontecendo tão rápido e sou testemunha das passeatas que, apesar de serem em vão, são lindas amostras do que se é capaz juntos, quando se quer. Bom, eu.. Eu só defendo a liberdade de amar. Mas defendo-a todos os dias, defendo-a para todos, e defendo-a com todas as partes que conheço de mim.

lados infinitos

eu não sei do amor, mas sei que deveriam haver mais palavras para os sentimentos. não é possível que o que eu sinta por mim seja o mesmo que sinto por outros e ainda o mesmo que sinto pelo feijão temperado da minha mãe. a gente quer tanto acreditar em alguma coisa, que então inventamos algo e nos esforçamos pra tornar isso real. mas é tudo infinitamente relativo, tudo infinitamente falso e verdadeiro, tudo infinitamente infinito. não há como saber nada! eu só sei o que posso ver agora, agora é hora de mudanças. já vi explosões demais, já vi muitas marés baixas..

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

ansie[sau]dade

o acanhamento das nossas horas
às vezes me trás alguma insegurança;
me sinto um caçador desarranjado,
mirando um alvo sem lança.

domingo, 4 de novembro de 2007

senhora dos traumas do mundo

Eu me confundi, o vermelho era só meu. Por vezes me deixei enganar pensando que éramos todos ramificações de uma veia maior, mas não. O vermelho é só meu, a veia é minha única. Exclusivamente eu. Não, isso não parece nada bom. Nada elegante ou atraente. Sou a única a sangrar os pensamentos. Sou a única aqui à procura de interpretações compassivas. Sou só uma que de tão sozinha, não consegue estancar o sangramento. Sou uma só que de tanto verter à si mesma, perdeu parte do passado azul. O vermelho contamina, me aquece tornando ásperos e crus meus pedaços, dos dedos aos cabelos. Por tanto tempo me enganei, as grandes fábricas cinzas encobrem vermelho. Por tanto tempo não vi que os grandes olhos castanhos omitem o vermelho, ignorei as grandes palavras aparentemente sensatas, que comportam o vermelho. Eu me enganei, estou sangrando por anos das mais verdadeiras mentiras. O tempo todo me confundi, o vermelho era e ainda é só meu.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

lembrança inconfundível

memória de uma certeza inconstante, ela vai e vem. por tempos se esconde, se disfarça; subitamente volta a se apresentar como um carinho dado pelo tempo, uma agradável ciência da vida. é relembrar o futuro, é tornar-se tranquilo sobre o que não se pode controlar. é volição dispersa nas vertentes da linha temporal da vida, é não preocupar-se. ganhei um presente hoje, me presenteei com meu próprio ânimo. cativei os feridos aqui dentro com a tranquilidade da incerteza, a inutilidade de ser inútil. revelei à mim mesma segredos de pedra: pequenos tesouros à vista de qualquer um que queira ver a crua simplicidade de ser dispensável.

domingo, 28 de outubro de 2007

borboletas no aquário

Se eu fosse um peixe, seria um peixe fora d'água. Mas o mundo é um aquário e não sou um peixe. Sou borboleta afogada. Minhas asas se movimentam desesperadas por voar e o som da tua existência me alivia o aprisionamento de nem sempre ter certeza de já ter visto o céu. Mesmo na água, juntas sabemos bater asas.

o que deu tempo

Pavor. Pavor que vem por debaixo da pele e estravasa meus poros, que me sobe até os cabelos e os faz querer arrancar uns aos outros. Pavor que contorna meus dedos e os contrái. Pavor que não sei, que não encontro outro nome. Calor quase frio, me domina de ódio. Faz os prédios do caminho parecerem prontos a fechar a rua, me consumindo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Do que é e do que não é oportuno

Venho desvirtuando o tempo, deslocando nele os acontecimentos. Tenho coagido alguns arbítrios, meus e de outros. Tenho desejado dominar os ânimos e alguns dos meus mais indomáveis anseios. Mas num ímpeto inesperado, me surge um ensejo: devo testar agora, minhas prioridades.

domingo, 21 de outubro de 2007

te ter comigo

o tempo é ilusório e tardio longe de ti e assim minhas expectativas têm pressa de tornarem a ser. aguardo os acontecimentos com uma empolgação tão aflita que logo se volta contra mim como um tormento que não descansa até que eu me moleste. eu me esforço pra segurar aqui a impaciência, mas existe um correio impulsivo em minha boca. falo com querer, mas falo sem pensar. nada faz com que eu espere um momento adequado, pois o apropriado em mim é a vontade como guia.

eu aflita, a lua hermafrodita

leve frio, depois da hora-auge da noite. o batalhão de desimpedidos já levantava acampamento. abrubtamente, é o que penso: as coisas como eu as lembro. o som dos motores pouco me vale, pouco me atrai. os motores internos dos peitos frios é que me dizem. a laranja que me desce pouco me vale, mas atrai. é como subterfúgio dos olhares deles, que escoltam como um pequeno batalhão deixado pra trás, cada passo teu. tu se contraria seguindo essas ordens, eu vejo com o meu motor nesse peito frio.

sábado, 20 de outubro de 2007

autógrafos

é tudo tão intenso aqui dentro, que dói. até os prazeres me dóem. as brisas que se apresentam com a noite, como num musical cheio de luzes, alcançam minha pele com uma delicadeza tão selvagem que se tornam agressivos seus carinhos. me finalizo na grama, rodeada por brisas orgânicas como os pensamentos, os poucos que me restam quando alguém começa a morrer em meu universo. tão logo descobrimos que se aproxima o distanciamento, enlouquecemos. saímos de órbita tão bruscamente que os ossos parecem não pertencerem mais ao mesmo lugar. essa noite eu canto em silêncio pras luzes que brilham constantes entre os corpos. peço com dor em meus prazeres que eu possa dar adeus às despedidas!

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

minha matéria é insuficiente pros sistemáticos

quem vai querer me interpretar? o abstrato feito de carne e sangue, o abstrato absorvido pelos meus órgãos. quem vai se aventurar nas minhas estórias? o concreto feito de cores e sons, o concreto feito de tudo que não se pode tocar com as mãos.

a intimidade em mim é vício

andei fazendo sexo com todas as coisas, e amor. a poesia desce e sobe com as formigas nas árvores. eu tenho e sempre tive as respostas, o vento trouxe algumas perguntas e tudo se encaixou. sou libélula que brilha com a claridade do sol que reflete em paredes brancas e o meu voar nunca me cansa. as coisas todas do mundo a cada instante me namoram e quando eu lhes dou atenção, trocamos prazeres.

estava eu no meu lugar, veio a cólera me fazer mal

tudo parece um sonho já vivido de um tempo remoto, distante e clichê. parece o retorno de anos atrás, quando eu invadia a janela branca da casa de madeira com meus bilhetes. agora sou eu que estou aqui, não tranquila, mas com a paixão já apaziguada em mim. meu sossego é breve e eis que meu ensejo me aparece: a ocasião esperada e talvez, pouco desejada. o meu súbito ingresso nesta zona perigosa, me faz desaparecer em mim. me oculto de alguns dos meu olhos pra enxergar os filhos dos meus pecados, pequenos erros cometidos em nome de alguns desejos. erros honrosos mas pouco gloriosos, a sinceridade cúmula que me habita e afugenta meus queridos. os transformo em sombra e mesmo que alguns não venham a ser literárias sombras em meu percurso desmedido, sempre se tornam fantasmas vagando em meus pensamentos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

agora é isso

"teu idioma começa a me fazer sentido. agora eu esperararia horas pra poder te fazer subir as escalas comigo. a escala do tempo, da compreensão, as escaladas dos sonhos futuros."

terça-feira, 2 de outubro de 2007

interrogação de uma tarde de sol

Me contrario constantemente ao tentar decidir o que quero, o que penso.Penso querer ou quero pensar? Deve haver alguém aqui, deve haver um outro morador em mim. Se não há, só posso concluir que sou oposta à mim mesma. Diriam de mim, inconstante. Mas inconstante? Assim é o ser humano. Que mesmo querendo se firmar, se contradiz. Vejo todos tentando se definir alguma coisa e sendo constantemente contraditos pelo que fazem. E eu? Eu sou um ser humano? (...) É um planeta contraditório esse, onde tentamos sempre desafiar o que nos mantém vivos. Eu desafio constantemente meu amor-próprio, desafio meus órgãos, desafio meus gostos. Somos todos passivo-suicidas, afinal? Pois eu vivo constantemente a desafiar meus pensamentos, superlotando minha cabeça. Eu me desafio constantemente ao tentar conviver com as dores que me trazem meu sobejo de sonhos e meu cúmulo de romantismo por um mundo que fede à lixo de cozinha. E não sei reparar o mal que meus desafios me causam, mas eu sempre vejo pontos de interrogação acima da minha cabeça, como desenhos em quadrinhos. Nada disso segue alguma linha de raciocínio, mas eu não preciso seguir coisa alguma afinal.. eu já nasci pro mundo, mas ainda não nasci pra mim.

emudecer

quem foi que me deu uma língua?
quem foi que me deu cordas vocais?
eu não queria, não pedi por elas.
(e sobre isso, não tenho nada a dizer)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

tenho sonhos, tenho ilusões

Esse universo não é meu mas eu quero refazê-lo. O sons saem por esse buraco no espaço, qualquer espaço. Imagino que esse buraco seja um túnel, pra ser possível assimilar com essa cabeça presa à parâmetros humanos, que tanta coisa saia de lá. Saem os sons. Eles são tudo o que existe, e cada momento são uma cor. É quem os vê ou percebe que decide o que são. São elétrons, são prótons. E são tão irmãos que são todos nêutrons. Há um ventilador feito de nêutrons no fim do túnel, que traz todos os sons. Os sons são luzes e são plástico. E minha mãe e meu pai são o túnel dos sons.

intrusos (ou eu intrusa, por ser uma só)

Não goste de mim, não queira gostar de mim. Tudo isso, minhas interpretações distorcidas da realidade comum, me é passagem pra um mundo próprio, isolado dos fatos. Me ocorreu agora que algo pode não ser criação minha. Me ocorreu a existência de algo incontrolável, capaz de movimentar o tempo e me transformar em matéria perdida. Me ocorre agora que somente meu corpo sofre os efeitos colaterais do tempo. Parte do que sou, seja lá o que devo ser, está à parte disso, distante e ingnorando o tempo, vivendo com clareza essa ilusão de mundo. Me ocorre agora que não há boleta que possa me tornar um de vocês.

sábado, 29 de setembro de 2007

prisioneira de mim

me sinto abusada pela moléstia dos meus próprios pensamentos. há dias estou nessa inquietude, resultante das minhas próprias armadilhas. a vontade é sair do corpo, abandonar esse antro. deixar escapar de mim esses desejos quase tolos pela sua ingenuidade. deixaria de ser repartida em mim, eu deixaria de ser tantas. assistiria em um telão à todas as cenas da minha vida, ganharia um oscar. dirigiria imparcialmente minhas escolhas, cada uma delas. quero ser testemunha neutra de tudo o que ver, cada atropelo meu. nem mesmo quero fazer comédia das minhas sandices, essas opções burras. quero só ver, analisar com a indiferença que à nada consigo ter, não estando aqui. sou prisioneira do sentimento de ser isso. não sei não ser eu nem por um instante e isso me mata!

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

amanhã

hoje vou recriar antes de acontecer e depois, te mostro como o futuro é.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

brinde entre amigos

Ela pega a taça de vinho e diz:
"Eu faço um brinde à nós. Que vamos esta noite, ao dormir, pra um museu. Um museu sombrio aonde estão expostos como peças de antiguidade, todas as nossas oportunidades perdidas. Faço esse brinde à nós. Que possamos voltar à salvo desse passeio ou que, ao menos, possamos conviver com os arrependimentos."

abstrato escrito

Como eu me emociono com as palavras! Elas me servem de escape e ainda assim, me empolgam. Gosto tanto de vê-las, são pensamentos e emoções que se transformam em sentimento escrito. Gosto de ver o abstrato nas palavras. Elas são tão elas, tão inteiras e formadas, mas se desmontam quando absorvidas. E dentro das pessoas, as palavras recriam os contextos, se misturam e se matam, perdem seu sentido. O óbvio é de cada um, um para cada um. Só que lá dentro as palavras morrem, desmanchando-se em pensamentos e emoções. Assim vejo como gosto das palavras! Sou meu próprio dicionário e consulto só a mim pra entender o sentido delas.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

fenda embriagada

foram nesses vãos que vocês me deram, nessas brechas por onde escaparam algumas possibilidades que, recentemente, procurei alguma verdade de mim. não é pouco fácil de compreender o quão incapaz foi essa busca mas continuei a insistir, me fazendo de maluca sem ouvir à mim mesma. neste caminho ingênuo que busquei, descobri que o perigo de se procurar é o risco de não se encontrar. foi assim que tomei pra mim mil interpretações. quanto à vocês, ainda estão por aí. vagando aqui dentro, desgovernados sem qualquer orientação de pra onde ir. mas é que eu ainda não sei qual caminho indicar. o rio que me espelha é de águas turvas e a maior parte do rio ainda não desceu.

domingo, 23 de setembro de 2007

aparte do real

um dia a poesia brotou e se dilatou em mim, agora eu vivo num mundo que não existe. há aqui um romantismo aumentado que dorme na minha cama e caminha comigo na rua. há aqui um tumulto perplexo das coisas. e é por isso que eu sou um pé no saco!

terça-feira, 18 de setembro de 2007

interesse desviado

tolice talvez. bobagem minha, besteira! é uma fração minha que é assim, de vez em quando vem à tona e encabula meu impulso. uma parte que não pensou, ou pensou do outro lado da cabeça, pois atravessando essa ponte de individualidade, encontro muitas razões pra ser tola. meus pensamentos, às vezes patetas, me indicam o caminho dos fios: os fios elétricos que nos dão energia pra ir e vir, pra torcer e pra esperar acontecer. a eletricidade que liga os telefones, a eletricidade que liga o acaso dos nossos encontros.
ainda assim, minha honestidade que vive em cúmulo me impede de qualquer disfarce: demonstro minhas tolices sem artifícios, acho mais bonito assim.

sábado, 15 de setembro de 2007

fugas infelizes, sem escapatória

tento sem sucesso, uma vez atrás da outra, mas não me escapo. e a aflição por pensar que minhas tentativas sempre serão falhas me mantém cada vez mais presa à este corpo deslocado do tempo, onde faço moradia indesejada dessa minha alma contraditória, tão renitente e tão evasiva.

interposto do platônico

intercalam em nós meus pensamentos:
penso em ti, não penso em mim..
penso em mim, não penso em ti..
vejo a inevitabilidade do platônico:
mesmo sem querer, só penso em nós dois.

te ver vindo

registrei em espírito o que me vinha a ser teu andar até mim. eu na porta da casa, entre a pequena multidão que esperava para começar a invadir teu lugar, molestada por aquele murmurinho de bocas viciadas em falar, e tu chegava até mim. caminhava macio, numa lentidão à qual se responsabilizavam meus olhos. vinha até apertando o passo, num ritmo que acelerava meus batimentos. registrava então em corpo, o teu andar. meu olhos ao te olhar vir, de certa maneira se desculpavam pelo meu sorriso inevitavelmente guardado, mas justificável: se assim não fosse, perigava a velocidade da sensação atirar boca à fora meu coração.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

limpando arestas

Falei contigo. Não te disse, mas adiantei. Marquei uma possível troca, quero palavrear os acontecidos. Quero te falar, te contar. Te dizer como foi que aqui dentro de mim aconteceu. Te mostrar a verdade vista daqui, te mostrar. Quero te lembrar de que, ao me ajudar a errar, tu também errou. Vou falar. Mas quero mais que isso, quero analisar contigo. Quero ver o que foi errado, pois ainda julgo neutra a nossa situação. Já existe em tudo um equilíbrio, desde o nascimento próprio da coisa. E nisso também há um ponto de igualdade. Quero examinar contigo o que foi e, contigo, criticar o que está sendo. Quero caminhar contigo, nisso não mudei de idéia. Minhas vontades ainda são, meus sentimentos ainda vagam em mim esperando tua colheita deles. E eu só posso dizer mais a mim, quando ouvir de ti algum gesto que me mova pra alguma direção.

duas caras

Vazio. Um quarto vazio dentro de mim, um quadrado em branco. Ausência de sentimento, sensação de mim ausente em mim. Sem controle das minhas mãos, que seguram um objeto qualquer. E em alguns movimentos desclassificados de meus braços, me lanço no espaço do quarto. Corro pra cada parede que vem em mim e marco, com o objeto qualquer, uma janela. Avisto enfim a rua, alguma atividade social. Folhas voam com vento, contentes de si, e pássaros vão pelas calçadas, caminhando entre as pessoas. Me vem um sentimento então, me sinto acoada. Observada por quatro janelas minhas. Não há como voltar atrás, o sol já entrou no quarto. Passado os momentos de arrependimento desesperado, me despeço relutante de qualquer sombra de minhas paredes.

sábado, 8 de setembro de 2007

Diário de uma paixão apressada.

Vejo em ti o que vai ser de mim um dia e é como se um espelho me mostrasse cada detalhe do meu corpo futuro através do teu. E cada expressão do teu rosto me vem sem querer como um espasmo e controla meu rosto e lembro de que é parte tua que já é minha. Um jeito teu que já copiei sem querer, que me mostra as linhas que nos prendem à todo resto desse universo que a gente criou sozinhos.

E é um espelho sim, mas feito de água. Quase me confundo, me pensando liquidificar por inteiro. E entre nós, um oceano. Mas um oceano é pouco pra quem se arrisca à mergulhar. Ao amar, somos peixes desbravadores, largamos a segurança dos cardumes e nos lançamos um de encontro ao outro.

Me ocorre aqui então um fato: minha dúvida. Ainda não te vi peixe, mas sou sim um peixe. Nado em ti como em águas tranqüilas e, longe de ti, existem águas furiosas que me levam sem que eu possa reagir. É a tua presença em meus pensamentos de peixe amante. Quero te ver peixe, quero te ver nadar em mim. Eu sou um rio, quem desce o morro em que tu estás. Na minha beira seguem os escoteiros, seguem outros animais. Na minha beira ficam pedras e raízes de árvores antigas que me dizem puro H2O. Bebe de mim, agora já sou rio. Bebe em mim, já que não sou mais peixe. O desespero por te ter por perto me tornou corrente, minhas águas se agitam quando vens mergulhar. Não te quero raiz, como quero as árvores, não te quero intacto e imóvel, como quero as pedras. Te quero a caminhar, a me dar a mão. Sou sereia.

Agora, ao que tu me vê, me transformei. Agora é paixão, vou te cantar pra encantar teu coração. E ao som da tua resposta, ao gesto da tua resposta, serei nova. Agora sim, mulher novamente. Assisto por alguns momentos diários meu reflexo no espelho, só pra poder te ver. Somos assim quando distantes um do outro, somos eu. Porque não posso te ver, e, dentro dessa cabeça, dessa minha cúpula cerebral, teu rosto se muda, transformando-se em mil outros rostos que se misturam em uma multidão dentro de mim. Às vezes te perco por alguns momentos, mas então vejo meu reflexo no espelho e te encontro. Te vejo em mim tão sereno que, ao ir dormir, estou serena também. Fecho os olhos pensando estar encostada em ti, e sonho contigo sim. Nos meus sonhos nosso amor é um pássaro que quer crescer pra voar. Ele tem todas as cores, e nosso riso o alimenta. Nos meus sonhos, tu é urso. Macio e quente, onde encaixo meus braços e durmo tranqüila. Não preciso dormir pra sonhar, nem de drogas pra ter visões individuais.

Quero te dizer isso, quero que tu saiba disso. Mas ainda não descobri um jeito de mostrar isso à ninguém. Mostrar a maneira como o calendário se forma visualmente no meu cérebro, a forma como vejo a tabuada. A forma como, ao dormir contigo, respiro perto do teu rosto e sinto o calor me derretendo, e como é tão real como qualquer outra coisa que se possa ver. Eu vejo tudo de olhos fechados. E é isso que quero dizer, quero dizer que a gente conta o tempo mas o tempo não conta. O tempo inventa, disfarça e nos engana. Essa ilusão de tempo nos impede de viver o que já pode ser vivido. Nós não precisamos de mais tempo. Nós não precisamos de mais espera se, até ao dormir estamos juntos, já tivemos vida suficiente pra eu poder te querer tanto assim. Eu quero tanto te dizer isso tudo. Eu quero tanto te ver peixe! Pra gente mudar juntos, ser todo tipo de bicho e objeto. Pra ti poder me dar a mão enquanto eu olho pela janela do carro. Pra gente poder correr da chuva algum dia. Pra gente poder correr pra chuva algum dia. Pra gente correr, correr, correr por tudo, por todos os cantos desse mundo que eu vivo, que me impede de qualquer outra viagem, pois é tão imenso, cheio de coisas pra encontrar. Tão colorido e tão preto e branco. Tão miniatura, cheio de detalhes pra descobrir. Pra gente correr por todo meu mundo, pra gente misturar nossos mundos, deixar esse daqui pra trás. Pra gente viver tudo, correr, correr. Depois, pra gente encontrar o lugar mais nosso pra descansar. E dormir, dormir como se o mundo não existisse mais. Pra sermos um o mundo do outro, e nunca mais termos que nos lembrar. Pra só viver. Pra só estar. Pra fazer durar o instante mais momentâneo que se possa encontrar. Quebrar o relógio, ignorar de vez o tempo. Pra criar um presente infinito-inacabável. Quero tanto isso, que choro. Choro por dentro e por fora. Me choro e te choro, choro nós dois. Choro o que poderia ter sido, mas mais que isso: choro o que ainda não foi. É a maldita dúvida que me dá a dor pra me sentir viva, me dá a ansiedade por tua pele, mas que me angustia. Me encolhe feito criança sozinha e me faz chorar.

Já derramei minha água, muita água minha, através de várias gotas. Cada dia uma gota de cada olho e, sinto aos poucos, meu corpo endurecendo. Virando matéria mais grossa pra, como eu disse, ser mulher. E vou perdendo a moleza de ser líquida, meu corpo vai ficando cada vez mais sólido. E agora chega, pois senão não sou mais mulher. Serei rocha fria, inigualável dor de amor sofrido. Não quero ser rocha, não quero ser. Lembro que já quis, quis ser forte, mas a força de uma rocha, de uma parede, é fraca se comparada a força de um inseto, que mesmo com suas asinhas levezinhas e miúdas, é capaz de tanto se considerarmos seu tamanho e habilidade sutil.

Não serei parede, nem rocha. Quero que tu possa ver através de mim, quero mostrar um pouco de mim até que, quando souberes o suficiente, tudo suma. Vou ser transparente, como vidro. Mas não serei vidro, quero ser mais leve que vidro. Precisamos ambos da minha leveza. Serei então transparente feito ar. E agora preciso do teu calor. Me dá teu calor, me esquenta! Quero evaporar a água de cada célula viva do meu corpo, quero evaporar. Quero virar nuvem, voar, quero te levar! E de lá, vamos ver o mundo não se despedir e vamos então ter certeza de pra onde ir.

Nós já vivemos o princípio, agora vem o próximo degrau dessa escada horizontal: o durante. O intermediário. O causador da insegurança, a dúvida. Mesmo tendo eu criado acordes, mesmo tendo eu jogado ao nosso oceano meus poemas pra ti, mesmo assim, não te vi me mostrar mais do que só desejo pelos meus lençóis azuis, pela minha lagoa, pela certeza de que estou aqui quando quiseres vir. É insegurança que dói, mas que aviva minha pele e sinto de leve o frescor do vento que às vezes dá as caras. Frescor que alivia a minha febre e me dá algum descanso do pensar em ti.

Agora sim, morri. Nasce comigo, vamos fazer um filho: um pecado. O pecado da vaidade ou uma coisa qualquer. Eu prefiro a vaidade de uma coisa qualquer.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

eu criei

que lindo o que eu criei: cinco dedos em uma mão! um ser humano que me segue na numerologia do pensamento. e cabelos, que crescem e não se amedrontam de crescer. e pêlos, que se encontram por toda pele. e meus filhos podem se descobrir ao fazer amor, encontrando em suas peles detalhes em segredo. que lindo o que eu criei! e só agora vejo, fui eu mesma.

pessoalidade disfarçada

não posso te ver, não posso respirar teus movimentos pela janela da caixa eletrônica. só recebo o que tu filtra, com a mente distante e talvez, desinteressada. não sei. nem mesmo sei com que estado da mente é que filtras as palavras que me manda. e fico aqui, sozinha, me sentindo de alguma forma, na tua companhia.

domingo, 26 de agosto de 2007

imperfeição

viciados em nos viciar..
quem pode ser o primeiro a apontar
um defeito, um vício ou um caminhar?
troquei o caminho do meio
pelas calçadas em frente ao bar.
me viciei em me amortecer
e ninguém pode me culpar!

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

poema oculto

abre parênteses. esse é um poema entre parênteses, que é pra essa gente não ler da gente. lembra daquele caso? o caso do meu atraso? pois ele virou meu casaco, ando com frio. e só de pensar no caso, me sinto largada ao acaso. será que a vida vai acompanhar meu relógio, ou devo acelerar os ponteiros pra ver a vida que poderá vir à vir, se encaixar na vida que planejei pra mim? ah, quantos casos.. o caso é que minha casa não é mais a mesma. aqui dentro jaz eu mesma, antes do tempo. fecha parênteses.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

lembranças turvas

às vezes não tenho certeza de já ter realmente te visto. será que foi minha imaginação?
teu rosto é diferente em cada foto que vejo.. e nas lembranças, lembro de mil outros rostos! como se fosses tu um coringa, um camaleão, alguém com mil disfarces.. ou somente alguém que eu nunca realmente vi. talvez eu. talvez tenha visto só a mim; e quando tu chegava, eu me intimidava e olhava só pra dentro.. sim, só olhava pra dentro de mim. e seria um engano dizer-te o contrário, que olhei dentro de ti, pois a cada minuto que passa, quando penso.. não te entendo! não te conheço! és um mistério pra mim! e de nada adiantam minhas investigações porque seja lá qual for minha conclusão de ti, será no fim uma conclusão de mim. quem és tu que eu quero tanto sem ter visto? e como pode a lembrança de cada rosto teu me fazer, ao mesmo tempo que me assusta, ter absurda vontade de te ter por perto? a tua voz eu já nem lembro, talvez nunca tenhamos falado. tenha sido talvez, a minha imaginação.. pq minhas tantas perguntas? pq essa minha confusão? eu lembro tão bem do primeiro dia! talvez tenha sido o nosso único dia.. e de lá pra cá, talvez tenha sido tudo um sonho! e amanhã acordaremos perguntando: que dia é hoje? verei teu primeiro rosto, e lembrarei da tua voz ao darmos bom dia.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

pedra sabão

invado teus olhos de pedra
tão firmes
com a água pura do meu olhar
vejo os contornos se criando
esbranquiçando tão belamente
os desenhos de cada sensação
as palavras mudas do olhar

ah, que bela noite essa
que vimos terminar
e que belo dia juntos observamos em silêncio nascer

e fica a ansiedade
a espera por outro encontro mudo
e a fantasia dos desenhos
que meus olhos farão nos teus

chuva em mim

Pensei
que com o tempo
as coisas
iriam
clarear
até tudo
transparecer,
mas o céu
está nublado
e sinto
que durmo
sempre
com os pés molhados.

poema em mutação

se um tigre de pedra
me roubasse o coração
faria o trem correr na direção do vento
inventaria um hino, ou qualquer canção
pra buscar todos os perdidos
encontraria em algum lugar solitário
os que passaram sem dizer uma palavra
e voltaria ao lugar de partida
com os pés de quem correu anos sem sair do lugar
uma mente ansiosa, o coração na eterna espera
do retorno da antiga criança
coroada por borboletas
pois já
agora o que resta é só impaciência

santos

será mesmo possível se manter cru neste mundo omnívoro? se não, então sou mais um iludido com promessas aparentes. bom, acho que somos todos iludidos de qualquer maneira. as coisas vão nos comendo quando pensamos estar certos ao achar que estamos nós a comê-las, por motivos vãos. e mesmo um pequeno adulto se perde ao acordar de um sonho ruim. e até os santos têm sonhos! e são deles os sonhos que mostram os mais vaidosos desejos de engolir as coisas. e tu, és santo ou pequeno homem? pois só conheço um homem verdadeiro, esse morreu ao ver o céu pintado de fumaça.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

súbito

Eu perdi uma coisa importante hoje, só não sei o que é. O caso é que esqueci uma coisa importante hoje, deve ser isso. Acho que nem tenho mais controle sobre as coisas, acho que nunca tive. Elas são vivas sozinhas e fogem de mim quando eu as ignoro. Fogem de mim e tão logo eu as percebo indo, já é sempre tarde, pois meu ritmo é lento diante o ritmo das coisas, elas fluem com mais facilidade pelo mundo porque se contentam em só ser, já eu, quero sempre saber pq sou.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

conto de uma noite

Dentro dela surgiu do nada, entre as suturas da última guerra, uma clareza incrívelmente nova: a de não se desesperar. Não havia mais empolgação nem para desempolgar-se, cutucou com o dedo indicador o machucado que nem aberto, nem cicatrizado, só estava a pele vermelha e seca, mas por dentro ainda o sangue indicando que ali doía. Lembrou que, para sua surpresa, havia encontrado alguns outros fugitivos da vida, bebendo por aí em alguma noite fria, nessa cidade que parecia estar diminuido com os dias numa velocidade tão sufocante que a enclausurava. Mas isso deu um leve ânimo, apontou a direção de algo novo. Era finalmente um lindo verme a se alimentar de carne morta, a pequena possibilidade esperançosa de que algo novo estaria por vir.