quinta-feira, 27 de março de 2008
saleiro mágico
o que eu sinto por ti? acho não dá pra dizer nada que tu possa entender pq não inventaram as palavras certas ainda, mas eu posso tentar: é como se o vento tivesse mãos e segurasse um saleiro de tranquilos grãos com poderes especiais. os grãos caem como uma chuvinha gostosa que desce de leve, e a gente vai sentindo, sentindo aos poucos. vai molhando o bobo, encharcando. um saleiro de açúcar e sal, que tempera as nuvens e adoça os momentos. e no nosso caminho de pedrinhas amarelas, a gente é acompanhado pelo vento que, às vezes mais, às vezes menos, polvinha a gente com sensíveis grãozinhos invisíveis. acho que o saleiro mágico é amor, sim.
quarta-feira, 26 de março de 2008
as minhas vírgulas
não me interrompa na minha interrupção, é apenas um intervalo necessário do tempo no tempo. eu não tenho mais pressa, gosto das minhas pausas. a vida é uma viagem longa, é preciso usar o freio uma vez ou outra. é só vagar no pensamento, só um pouquinho. é breve, mas sem pressa. acredite, logo virá uma ventania pra arrastar tudo. mas como o momento de chegada dos ventos é sempre imprevisível e nunca se sabe bem o que esperar de uma ventania, nesse meio-tempo as vírgulas mantém a alusão.
mais uma vez, outono
o vento do ventilador tocou a pele mas não foi igual ao vento que fazia lá fora. pq de lá eu via o céu, e os pensamentos voando me faziam voar. a sensação de tocar as nuvens com os pés ainda no chão sempre me fez sorrir, e é aí que eu lembro da já nostálgica criança que eu fui, no parapeito da janela sentindo o outono chegar. me descobrindo desde então uma folha, aquela última a cair da árvore. ainda verde, fazendo piruetas até deitar na calçada e esperar o tempo. é quando tudo morre pra poder nascer. e de volta ao ventilador, retornando a olhar as horas, nada parece fazer muito sentido quando se cogita falar. tentar explicar qualquer uma dessas coisas é dispensável, e o meu silêncio toma conta das lembranças do futuro, lembranças que ainda são sonhos jovens. e logo tudo vai passar pois há coisas a fazer. esses pensamentos são só maluquices que uma voz desconhecida faz, tocando a gente por dentro, vindo de uma música com a batida exata.
sexta-feira, 21 de março de 2008
vício
como se fosse um círculo, a mente se encontra. um gato adolescente tentando pegar o próprio rabo. viciada em pensamentos contínuos daquela mesma coisa: a falta do conseguir querer. e como se sabe, desde que se sabe, o contínuo é continuado enquanto continuo é. confuso? pois é. sem se dar conta, a confusão toma conta. e continua tudo igual, uma torneira aberta que não se consegue fechar.
segunda-feira, 17 de março de 2008
térmico, visual, recomeço.
sinto, des-sinto. sento e penso. de tudo aquilo que passou de leve em mim, como a brisa da manhã que chegava, eu esqueci. passou tão raso, como todo superficial é breve em mim. e ficou presa na pele aquela sensação de frio, que doía por dentro, e a sensação do alívio, que acalmava tudo. o meu antigo pensar desfuncionava tudo que tinha potencial, pq me fazia duvidar de pessoas como eu. pessoas que dormem e acordam, todos os dias, sonhando sonhos de coisas bonitas. e quando as coisas desfuncionavam, eu me tornava feia com elas, pois não havia em mim ou nelas algo que vivesse por uma intenção. os intuitos morriam, evaporados pelas vertentes que as dúvidas criavam. e designou-se em mim, então, um termômetro. é tudo quente ou frio agora, o morno se dispensou quando a nova dualidade começou no mundo. certo e errado se extinguiu: só há beleza e sua ausência, agora.
quarta-feira, 5 de março de 2008
abrindo a caixa de pandora
da vontade já existente em mim, eu moldei o medo. minha acidez estática se tornou informe, dissolvida em torno de movimentos frios e pensamentos montruosos. a grandeza do que veio a ser foi linda, mesmo que por tanto tempo antes, inesperada. entrelaçados, os corpos uniram o pensamento, a tranquilidade veio tão logo como a vontade de que, não o momento, mas a sensação durasse para sempre. seguiram-me dúvidas de o quê a imagem lilás que eu estava a observar poderia ser. um quadro sem moldura, ou um espelho sem corte. acredito que seja minha imagem, um rio sem beira. acredito que sejamos nós, passeando calmamente pelo mundo, descobrindo um no outro, a companhia em nosso caminho. acredito mesmo que sejamos nós, os dois em mim.
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