Tinha olhos. Dois, para ser mais exata. A criança Carolina tinha dois olhos, que enxergavam o que quisessem enxergar, perfeitamente. Ainda assim, isto não era suficiente para o mundo, que tentava incansavelmente fazê-la enxergar de maneira diferente. Ora! Cada um não enxerga como bem deseja? Quem é que já não andou no centro da cidade, tropeçando em todos os que passavam, olhando bem para o alto para ver aonde terminavam cada um daqueles prédios? Carolina já. Dava-lhe prazer, talvez, ou apenas lhe era uma necessidade incontrolável olhar para uma direção diferente e não se sentir parte da multidão que andava apressada e aparentemente sem rumo, como formigas num formigueiro sendo destruído por uma criança mal-criada. Aliás, Carolina gostaria de ser gigante. Ela imaginava ver tudo de cima, ver um horizonte desconhecido, ela imaginava salvar o formigueiro! Mas nunca foi reconhecida por seus pensamentos generosos. Quem via de fora, se irritava com a menina pensando, pensando. - Volta pra terra, guria! - diziam. Com o tempo: as experiências. E Carolina foi aprendendo a dividir as coisas, dividir o tempo. Ela aprendeu a fingir que não pensa (ou disfarçar que pensa). As pessoas distraídas até começaram a acreditar mesmo, que a menina havia deixado de pensar, como se fosse pensadora por mania, por vontade ou birra. Não havia lhes passado pela cabeça, que não se abandona a própria natureza. E por isso há dias em que ninguém vê a menina que, já crescida, se isola para dar espaço, neste mundo de pilotos automáticos e controles remotos, à imaginação.

Um comentário:
I miss you..
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